Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres



segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Mal-me-quero


No vai da valsa
Desta minha vidinha
De estações tropicais
Mal e porcamente
Delimitadas,
Semeei canteiros
Feito um tolo,
Mesmo quando
Primavera
Quem dera...
Quimera.

E assim como hera,
Escandente hera,
Subiam-me viços,
Braçadas, ternuras,
E com meu dedo de Tistu
Eu regava o mundo
De verdes e bondades,
Carícias e botânicas,
Uma alegria pueril,
O bem não importa a quem.

Mas agora prevejo:
Meus anos caducos
Serão penosos,
Os meus anos caducos...
Secos e estéreis,
Os meus anos caducos...
Pois detectei enfim
E tarde demais
A praga essencial,
O lapso fatal.

Fosse chuva
- De prata -
Ou fosse sol,
Copo de leite
Ou girassol,
Eu me esquecia
Todo dia
De ir gostando
- Um pouco
De cada vez -
Da figura em mim,
A florada intrínseca,
A pétala fundamental,
Minha alma-minha palma,
O meu eu-jardineiro
Que não reguei.

E agora
E na hora
De nossa
Solidão final,
Amém,
Não haverá saída
Nem margarida
Nem bendito fruto
Nem tarja preta
Que me adube o árido,
Que me sossegue o facho,
Que me acalme os nervos,
Que me aplaque a dor
De ser eu
Minha única
E insatisfatória
Companhia.



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Madrugada Subjuntiva


E se eu não amanhecesse?
Avivasse labaredas no meu ninho de dejetos e mormaços
E deixasse que um lento vapor me cozinhasse?
E se na chaleira corroída do meu banho-maria,
Eu largasse sua mão e me afogasse?
E se eu sorvesse dessa nuvem o que de etéreo houvesse
e voasse, voasse, até que algum Ícaro me despencasse?

E se eu não mais respirasse?
Rompesse cada artéria até meu mar vermelho vazar-se?
Lençol atado no pescoço até que o lustre despencasse?
Um banquete pútrido para que as tripas me delgassem?
Uma rainha louca que me cortasse e embaralhasse?
E se, em vez disso, eu só não mais sonhasse
– já não seria um fim que me bastasse?






segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Poema de morrer


Levanto um circo pra morrer na lona
Escalpelo um frango pra morrer de pena
Pra morrer de véspera, adianto uma novena.

Primeiro viro zen pra depois morrer de ódio
Ganho uma eleição pra morrer de puro tédio
Pra morrer recuperado, saboto o meu remédio.

Toco tuba no coreto pra depois morrer discreto
Viro a fera do bordel, pra acabar no come-quieto
Pra morrer desenganado, me espatifo no concreto.

Compro terra no Xingu pra morrer no Himalaia
Evaporo os sete mares pra poder morrer na praia
Pra morrer canonizado, barbarizo na gandaia.

No bucho, manjar dos deuses – e assim morro de azia
Na pele, banho de lua - e, por fim, morro de dia
Pra morrer durante a noite, holofote na coxia.

Evito o teste da farinha, mas morro em cima daquilo
Na trilha, tango argentino – de mortalha, um espartilho.
Pra morrer cedo e tranquilo, incendeio o meu asilo.

Compro gado atrás de gado só pra morrer mamado
Renovo meu enxoval pra poder morrer pelado
Pra morrer na sua cama, sonho sempre acordado.


segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Língua viva


Desde que rebobinei
Pela primeira vez
Meu futuro de palavras mortas,
Aperto e reaperto teclas,
Insistindo no replay,
Pois, custo a crer,
Nem amor restará
Na crista da onda.



segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Plim-plim


No meu horário nobre,
sempre cabe mais um.
E o amor, despreparado,
feito desodorante barato,
absorve qualquer bordão.
Slogan, jingle, merchandising
viram bomba atômica
nos meus ventrículos
agora bem irrigados.

Mas e o test drive?
E a placa bacteriana?
E o escudo invisível?
Cadê
o prometido alívio imediato
para terríveis dores de cabeça,
os males de fígado,
os desconfortos estomacais?

Incomodado fico eu.
Eu e meu inchado coração
Buscando audiência,
Colecionando reclame.
A primeira dor digital HD
a gente nunca esquece.
Agora dança, neném,
aguenta o tranco,
segura no texto,
chupa que é doce.







segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Por pouco


Você apareceu na fresta
Justo quando descuidei do olhar
E só pude reter o seu relance
Visão que mantenho até hoje
Feito epifania ou hit top ten
Na memória picotada
Do meu papel no mundo
No cérebro congestionado
Da minha falta de sorte
Na lista desperdiçada
Dos meus amores possíveis

Pena mesmo desta vez foi por pouco
Puta medo nunca mais ver seu corpo





segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Jeito de ser (2)


Cultuo as grifes, mas arranco os rótulos
Tatuo os braços pra mimar os músculos

Arregaço as mangas pra chupar caroço
Viro as páginas, mas que livro grosso...

Aborto um rei pra ninar uma placenta
Queimo meu filme e morro em câmera lenta

Beijo bocas raivosas pela paz da anestesia
Chacoalho arbustos pra ser eu a ventania

Rolo na esteira, adio o serviço
Suo no rego por dor e capricho

E depois me vem o êxtase:
Atiço a onça e ligo o foda-se.