Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres



segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Plim-plim


No meu horário nobre,
sempre cabe mais um.
E o amor, despreparado,
feito desodorante barato,
absorve qualquer bordão.
Slogan, jingle, merchandising
viram bomba atômica
nos meus ventrículos
agora bem irrigados.

Mas e o test drive?
E a placa bacteriana?
E o escudo invisível?
Cadê
o prometido alívio imediato
para terríveis dores de cabeça,
os males de fígado,
os desconfortos estomacais?

Incomodado fico eu.
Eu e meu inchado coração
Buscando audiência,
Colecionando reclame.
A primeira dor digital HD
a gente nunca esquece.
Agora dança, neném,
aguenta o tranco,
segura no texto,
chupa que é doce.







segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Por pouco


Você apareceu na fresta
Justo quando descuidei do olhar
E só pude reter o seu relance
Visão que mantenho até hoje
Feito epifania ou hit top ten
Na memória picotada
Do meu papel no mundo
No cérebro congestionado
Da minha falta de sorte
Na lista desperdiçada
Dos meus amores possíveis

Pena mesmo desta vez foi por pouco
Puta medo nunca mais ver seu corpo





segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Jeito de ser (2)


Cultuo as grifes, mas arranco os rótulos
Tatuo os braços pra mimar os músculos

Arregaço as mangas pra chupar caroço
Viro as páginas, mas que livro grosso...

Aborto um rei pra ninar uma placenta
Queimo meu filme e morro em câmera lenta

Beijo bocas raivosas pela paz da anestesia
Chacoalho arbustos pra ser eu a ventania

Rolo na esteira, adio o serviço
Suo no rego por dor e capricho

E depois me vem o êxtase:
Atiço a onça e ligo o foda-se.







segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Jeito de ser (1)


Piso no cadarço e tropeço no raciocínio
Primeiro monto a farsa, depois o patrocínio

Se desencapam meus fios, gozo na calça
Se cremam meu samba, renasço na valsa

Picoto a gravata e nem conheço o noivo
Ajeito meu lobo, mas abafo cada uivo

Rabisco o seu mapa e conquisto território
Bocejo no discurso, mas fomento falatório

Fujo do convento pra me trancar no armário
Mutilo documento, passaporte do caralho



segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Enquanto o homem


Pontes reproduzem lampejos
Ruas buzinam ansiedades
Pedras acumulam coragens
Paredes descascam verdades
Bois pacientam destinos
Galinhas relativizam sentidos
Rosas vicejam desculpas
Morangos sedimentam paixões
Fogueiras estalam rompantes
Estátuas prometem revanches
E os dromedários descansam ao sol

Enquanto o homem, ah, o homem corre
– que ele só tem um tempo,
o maldito tempo de sua vida.




segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Vida besta



Venho por meio desta
Caído no fim da festa
Desprezo que me molesta
Reboque de cal na fresta
Exame que nunca atesta
Mentira não me detesta
Esbanja mas não empresta
Recorta sua mão honesta
Franzido me rasga a testa
Cultivo cova funesta
Novo arranjo velha seresta
Silêncio de quem protesta
Refoga um quilo de floresta
Tempera a boia da indigesta
Espanha suspende a sesta
Quem ri da puta modesta
Meu mar de bosta que infesta
Rompante que ainda me resta
Mas que porra de rima é esta?




segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Meu reino encantado


Sempre que morro
deixo miolo de pão como rastro
e até hoje não houve meios
de que um passarinho faminto
me salvasse do faz de conta
e engolisse meu chão de bromato

Então eu volto.

Sempre que volto
engulo paredes de confeitos
mastigo chaminés de marzipã
devoro armários de nutela
até que engordo de novo o dedo
e chamo a bruxa pro serviço sujo:
mastigar minha vida sacarina

Então eu morro.

Figurante 3D sem nome nos créditos,
assim é que faço e refaço a travessia,
pensando que vida é fábula,
achando que morte é sono,
rezando pra que Deus não seja menos
do que Hans Christian Andersen