Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres



segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Passo a Passo


Hoje eu só passei vontade:
De um bolo, de um colo.
De um canto, de um júbilo.

Hoje eu só passei da conta:
Gracejos, arremedos,
Protestos, descalabros.

Hoje eu só passei apertos:
Na boca do estômago, no intestino delgado,
No meio das pernas.

Hoje eu só passei a ferro:
Este meu coração que não esquenta,
Este meu desalinho que me inquieta.

Hoje eu só passei pomada:
Mas lenimentos são inúteis
Para ferida assim tão sangrenta.

Hoje eu só passei bem longe:
E nem vem com pique-esconde,
Tenho pressa e dor na glande.

Hoje eu só passei foi trote:
Desafinei no samba-rock
E inventei-me novo TOC.

Hoje eu só passei foi raiva:
Até entender que não sou eu que passo,
Que nem sei meu compasso.






segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Duas Amantes

Toda vez que me deito com Adélia,
Poema puxa poema
E me estoura a bic no lençol.
Sei que é sinal de inveja boa
E fertiliza o bloco de papel A4
Que finjo esquecer ao lado da cama
Para momentos como este,
Em que palavras são sirenes
E a ambulância sou eu.

Sempre que me encaixo em Clarice,
Prosa aduba prosa
E me florescem etéreas fábulas,
Feito penas de ganso
Que escapem de prenhas fronhas.
Então prescrevo fiapos de sentença
E receito fios da mítica meada
Com letra apressada de doutor
E insônia aflitiva de amador.

Mas, claro, não me permito pistas nem rastros:
Sem consciência de florestas,
Ecologicamente incorreto,
Rasgo tudo na manhã seguinte,
Celulose inútil, letras de aborto.
E, pleno de gozo, me absolvo:
É meu ritual muito secreto
Para seguir amando as duas,
Adélia e Clarice, Clarice e Adélia.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Ligado

Na taça embaçada
De sofreguidão
Goles velozes
Volumosos goles
Não passam de gotas
De rubra ilusão
Incompetência da safra
Malogrado teor

Por que falham sempre,
Inútil zonzeira,
Fugaz estupor?
Pois sigo solerte
E suo insone
Não passo de volt
No aceso da noite
No espasmo da dor



segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Dois pedidos


1.
Oh, gota apressada,
Que escapa da nuvem
Antes da profusão,
Pinga tua graça afoita
– solitária anunciação –
Em minha fronte inepta,
Aspereza da imaginação.

2.
Vem, lépida fagulha,
Que rejeita o graveto
No auge da fricção,
Espalha tua gana aflita
– prematura combustão –
Em meu deserto de bruma,
Profundeza da solidão.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A próxima insônia

Agora é isso
Toda vez isso
Dia e noite isso
Cada sono que aborto
Sangra de manhã uma cachoeira
E eu não venço despejar no esgoto
As gosmas rubras do meu desconsolo
Nem mais evito manchar meus fuxicos
Com os piches noturnos de uma imensa dor
E ainda que empunhe o graveto e atice centelha
Esbarro a alma no velho abajur de cetim estampado
E choro este amor errado
Que teima em arder sem parelha
Minha gastura avança sem ponteiros
Até que olho as horas e avisto mil coelhos
Lépidos carrascos armados e desgovernados
Que me imprimem requintes de escalpelos
É tarde mas teclo sem brio um alô em carne viva
E só o que consigo de ti em nova inútil investida
É me enrolar zonzo torto fraco murcho
– mais sozinho ainda –
Nos trapos gélidos da próxima insônia


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Uma Relação

Tenho alguém na minha vida
Que me diz coisas fodidas
Que eu nasci para escória
Que não sei o que é vitória
Que na boca há jorro pútrido
E no falo um lixo fétido
Que só arrasto uma carcaça
E envergonho qualquer raça.
Que decomponho e esfarelo
Às vezes bile, às vezes gelo
Que contamino o horror supremo
Primeiro engulho, depois veneno

E que me vai triturar miolos
E que me vai cozinhar miúdos
E quer rifar meus dez artelhos
E estilhaçar meus mil espelhos
Cobrir de lâminas orifícios
Vazar meus olhos sub-reptícios
Empelotar o sangue, escoar o sêmen
Até que vermes me acenem.

Mas não me importo, nada temo.
Tenho alguém na minha vida
Que me diz coisas fodidas
E só fraquejo e desabafo
Quando – pena! – tudo cessa,
Tudo fica na promessa.


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Rejeitado

Quando eu volto de você,
De olhos vermelhos,
Deixo água salgada como rastro
E você nem me segue
Com medo de mar...
Quando eu volto de você,
De olhos parados,
Cai um raio e não desmaio,
Boa-noite-cinderela como sequela,
E dói no almoço, e dói na janta,
Comprimido vira mistura.
E cisco o prato, mastigo as cápsulas,
Haja posologia, inútil profilaxia...
Pois eu volto de você
E quem disse que isso tem cura?