Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres



segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Duas Amantes

Toda vez que me deito com Adélia,
Poema puxa poema
E me estoura a bic no lençol.
Sei que é sinal de inveja boa
E fertiliza o bloco de papel A4
Que finjo esquecer ao lado da cama
Para momentos como este,
Em que palavras são sirenes
E a ambulância sou eu.

Sempre que me encaixo em Clarice,
Prosa aduba prosa
E me florescem etéreas fábulas,
Feito penas de ganso
Que escapem de prenhas fronhas.
Então prescrevo fiapos de sentença
E receito fios da mítica meada
Com letra apressada de doutor
E insônia aflitiva de amador.

Mas, claro, não me permito pistas nem rastros:
Sem consciência de florestas,
Ecologicamente incorreto,
Rasgo tudo na manhã seguinte,
Celulose inútil, letras de aborto.
E, pleno de gozo, me absolvo:
É meu ritual muito secreto
Para seguir amando as duas,
Adélia e Clarice, Clarice e Adélia.

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