Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Último boletim
A protuberância incômoda
De meu baço bagaço
Compromete a nudez lucidez
De meu autoconhecimento
O fígado segue apodrecido
E regado por alto teor de tristeza
Enquanto a qualidade úmida
De minha autopiedade crônica
Encharca papagaios e artérias
E me debruço feito moça feia
Nos parapeitos retorcidos
De uma severa autocrítica
Depois amparo minha diverticulite
No despropósito deste terraço de hospital
Com todas as vertigens antibióticas
De meu galopante autoengano.
Por isso, senhoras e senhores,
No flashes, no questions.
segunda-feira, 10 de junho de 2013
O poder das palavras
As palavras pontificam dilemas
tão obstinadamente
que só sossegam
quando trituram cálcios
que só descansam
quando mastigam eixos
que só arrefecem
quando demovem cristos
As palavras arregimentam verdades
tão vertiginosamente
que só acreditam
quando margeiam cancros
que só recrudescem
quando zonzeiam pontes
que só respiram
quando regurgitam vírgulas
As palavras bailam hipóteses
tão descompassadamente
que só debutam
quando sangram serifas
que só emagrecem
quando engolem palanques
que só exultam
quando vislumbram sofismas
segunda-feira, 3 de junho de 2013
Teatro infantil
Sobe no palco, menino.
Desgrude dessa poltrona.
Que conforto qual o quê!
E, ademais, menino,
Será que não vê
Que o tule da bailarina
Arrebita por você?
Entre na trama, menino.
Desmanche essa cortina.
Que engomado está você!
E, ademais, menino,
Será que não vê
Que o sorriso da boneca
Não é de matelassê?
Cresce sem pressa, menino.
Bagunce todo o cenário.
Quanto sonho pra mexer!
E, ademais, menino,
Será que não vê
Que o encanto da princesa
Já enfeitiça o seu querer?
segunda-feira, 27 de maio de 2013
Autodescoberta
Aos cinquenta e dois anos, três meses e 29 dias
cronológicos,
às duas horas, cinquenta e oito minutos e 13 segundos
analógicos,
depois de caixas de fluoxetina e doses de maracujina
ansiolíticos,
desvendei-me, enfim, na sequência de meus algoritmos
genéticos:
sou um cubo mágico desbotado de tantos enganos
daltônicos,
a ata da soma de todos os vocábulos
polissílabos,
o epílogo perfeito para cada enredo de amores
platônicos.
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Dia de ganhar presente
Hoje eu presenteei minha solidão
Dei a ela mimos de apaixonado
E a concretude viscosa das secreções
Todos os meus pingos em lindos potes decorados
Hoje eu presenteei minha solidão
Dei a ela o desvario das pisadas largas
Num passeio súbito pelo conforto dos moletons
Todas as minhas dores num ritmo aeróbico de malhação
Hoje eu presenteei minha solidão
Dei a ela um espetáculo de teatro
Um lugar na pista, um camarote vip
Todos os meus silêncios na estupidez das caixas de som
Hoje eu presenteei minha solidão
Dei a ela bordões da xepa, sirenes do rush
Uma remarcação de preços, a bolsa e o pregão
Todas as minhas preces no funk podre da viração
Hoje eu presenteei minha solidão
Cansado de me mastigar em comiseração
Doente por me remediar sem solução
Zonzo de me embalar em rede de proteção
Depois, sozinho, voltei ao ninho,
ao copo, ao livro, ao edredon
Preenchido até a boca pela missão
Benemérito como beata de procissão
Pois hoje eu presenteei minha solidão
Amanhã, não.
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Rei do Vexame
Para que serve um ridículo rompante
Senão para provar que a vida segue adiante?
Pode o coração bombar o quanto for
O que nos renova é o descompasso do amor.
Encho taças com cada gota do meu destempero
Sei como vale esperar por fevereiro.
Vocifero, esbravejo, esculacho o protocolo
Só me afirmo, quanto mais me descontrolo.
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Drag Queen
Os saltos da viril vizinha do andar de cima
Oprimem o meu eu mais letárgico
E sempre na mesma boca da madrugada.
No começo, pensei que ela voltava do ofício,
Pobre de mim, que velho fiquei.
Quando ela esmaga meu sono, invasiva e pontual,
Com aquela pisada de balangar meu lustre,
Não é volta, nada, pois que ainda é cedo,
Cedo, cedo, cedo, cedo...
Pobre de mim, em que hit parei?
Quando ela crava o escarpim no meu pé-direito,
É a hora em que a lépida monta a saída triunfal
Rumo aos decibéis remasterizados
Dessa felicidade fácil, que eu, moço mofado,
Pobre de mim, nunca mais terei.
Assinar:
Postagens (Atom)