Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres



segunda-feira, 20 de maio de 2013

Dia de ganhar presente


Hoje eu presenteei minha solidão
Dei a ela mimos de apaixonado
E a concretude viscosa das secreções
Todos os meus pingos em lindos potes decorados

Hoje eu presenteei minha solidão
Dei a ela o desvario das pisadas largas
Num passeio súbito pelo conforto dos moletons
Todas as minhas dores num ritmo aeróbico de malhação

Hoje eu presenteei minha solidão
Dei a ela um espetáculo de teatro
Um lugar na pista, um camarote vip
Todos os meus silêncios na estupidez das caixas de som

Hoje eu presenteei minha solidão
Dei a ela bordões da xepa, sirenes do rush
Uma remarcação de preços, a bolsa e o pregão
Todas as minhas preces no funk podre da viração

Hoje eu presenteei minha solidão
Cansado de me mastigar em comiseração
Doente por me remediar sem solução
Zonzo de me embalar em rede de proteção

Depois, sozinho, voltei ao ninho,
ao copo, ao livro, ao edredon
Preenchido até a boca pela missão
Benemérito como beata de procissão

Pois hoje eu presenteei minha solidão
Amanhã, não.





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