Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres



segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Rejeitado

Quando eu volto de você,
De olhos vermelhos,
Deixo água salgada como rastro
E você nem me segue
Com medo de mar...
Quando eu volto de você,
De olhos parados,
Cai um raio e não desmaio,
Boa-noite-cinderela como sequela,
E dói no almoço, e dói na janta,
Comprimido vira mistura.
E cisco o prato, mastigo as cápsulas,
Haja posologia, inútil profilaxia...
Pois eu volto de você
E quem disse que isso tem cura?

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Telefonia

E este telefone que não toca?
Quem inventou:
Este aparelho de tortura?
Este aparato de guerra?
Este aperto de gatilho?
Este apuro de saudade?

Do outro lado da linha,
Sem bateria nem vibracall,
Sei que alguém já dorme,
Sei que alguém já ronca,
Sei que alguém já era.

Deste lado da linha,
Na madrugada calada e fria,
Sem viva-voz
Nem rings
Nem beeps
Nem buzzers
Nem faces
Nem tunes
Nem messages,
Graham-Bell maltrata mais um amor.

Por falta de sinal.



segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Lírica Inútil

Não vou desperdiçar em verso
A palavra mais bonita da língua
Se você nem soneto nem ode

Persigo a retórica, perfeição idiomática,
A palavra mais rojão no céu da boca
Mas você nem canto nem trova

Balada de saliva, festa do sussurro,
A palavra mais formosa lambe e pinga
E você nem rima nem rica


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Sacada

Procuro rede de proteção
Contra meu ímpeto intergaláctico
Meu choro performático
Meu chilique programático

Procuro rede de proteção
À prova de um tolo dramático
Complexado enfático
Obcecado monotemático

Procuro rede de proteção
Para meu tédio monástico
Meu domingo de frio e Fantástico
Minha sacada de flores de plástico

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Vivências

Pus o nariz pra fora da órbita
Tinha cada céu que eu despenquei
Fui parar no rabo de um cometa
Acordei sabendo que voei

Pus os pés pra fora da janela
Veio tanto ar que eu gangrenei
Fui parar na quadra da Portela
Tropecei pensando que sambei

Pus o pau pra fora da cueca
Era puro pó que eu espirrei
Fui parar no estojo da boneca
Me pintei, me pintei, me pintei

Pus a vida pra fora da gaveta
Tinha tanto nó que eu desatei
Fui parar no colo do capeta
E acabei tramando contra o rei

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Desta Vez

Diga você desta vez, diga
Tudo o que eu costumo lhe dizer
Diga você desta vez
E eu só fico aqui no vácuo,
Quieto, contrito, atento
Eu só fico aqui no ninho
Varado, vidrado, encantado
Enamorado da sua voz, sua cadência,
O volume e a potência.

Diga você desta vez, diga
Tudo o que eu penso de você e lhe derramo
Diga que você também pensa de mim e me derrama
Diga as palavras exatas que inventei pra lhe caberem
Diga como se fossem suas, frases prontas pra me vestirem

Diga você desta vez, diga
Diga que perde sangue, cai o cabelo,
Queima a pele, gela a espinha
Diga tudo o que padeço eu
Como se fosse seu
O corpo que definha

Diga você desta vez, diga
Peça, implore, declare, reitere
Bata na tecla da mesma sinfonia
Declame de volta a minha elegia

E, por um tempo meu, curto que seja,
– vento súbito que me pega,
chuva rápida que me rega –
eu ficarei respondendo sim, sim, sim, sim...
Todos os sins que você nunca me entrega.


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Malbec

Sim, eu tomo cuidado, muito cuidado,
Enquanto passo água pra escorrer o pó de solidão e bile,
Que acumula na pele jateada de cada habitante da cristaleira.
Mas se quebrar a taça no tilintar do inox da torneira,
Antes que desça pelo ralo o mais reluzente fragmento de festa,
Corro e escolho, dentro da porca pia, o caco mais bonito.

E com ele circuncizo-me pontas, mutilo-me em lascas,
Desbravo-me caminhos de coágulos vermelhos,
Entre encruzilhadas de pelos e colônias de acnes,
Jorrando-me de pirraça, pra manchar o tapete cor de creme
Que me anula há anos, com sua falta de viço,
No falso redemoinho de minha sala sem visitas.

Gélido, amparo-me torto na gordura pré-socrática
dos azulejos decorados de minha vã cozinha.
Recolho os outros cacos da taça quebrada
E com eles encho um prato fundo de louça:
Faço a última refeição, ‘estilhaços à moda do chef’.
Meto os dentes, ali mesmo, com os bagos rompidos
E a barriga encostada na velha pia de pedra lascada.

Suando de ciúme, intacta no óxido gasto
Da única bandeja de minha não-mobília,
A inútil garrafa de malbec, terrivelmente resfriada,
Rubra me assiste mastigar com cuidado,
Sim, com muito cuidado,
dez vezes cada bocada
– de cristal.