Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres



segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Malbec

Sim, eu tomo cuidado, muito cuidado,
Enquanto passo água pra escorrer o pó de solidão e bile,
Que acumula na pele jateada de cada habitante da cristaleira.
Mas se quebrar a taça no tilintar do inox da torneira,
Antes que desça pelo ralo o mais reluzente fragmento de festa,
Corro e escolho, dentro da porca pia, o caco mais bonito.

E com ele circuncizo-me pontas, mutilo-me em lascas,
Desbravo-me caminhos de coágulos vermelhos,
Entre encruzilhadas de pelos e colônias de acnes,
Jorrando-me de pirraça, pra manchar o tapete cor de creme
Que me anula há anos, com sua falta de viço,
No falso redemoinho de minha sala sem visitas.

Gélido, amparo-me torto na gordura pré-socrática
dos azulejos decorados de minha vã cozinha.
Recolho os outros cacos da taça quebrada
E com eles encho um prato fundo de louça:
Faço a última refeição, ‘estilhaços à moda do chef’.
Meto os dentes, ali mesmo, com os bagos rompidos
E a barriga encostada na velha pia de pedra lascada.

Suando de ciúme, intacta no óxido gasto
Da única bandeja de minha não-mobília,
A inútil garrafa de malbec, terrivelmente resfriada,
Rubra me assiste mastigar com cuidado,
Sim, com muito cuidado,
dez vezes cada bocada
– de cristal.


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