Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres



segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Sale



Hoje,
trinta e um,
fechar pra balanço
na cadeira do vovô.
Amanhã,
primeiro do ano,
mais um verniz
na palha gasta
da mesma cadeira
e um rubro xis
na minha remarcação.

De resto,
pechincho um sol,
que me liquida,
enquanto escorro barato
de mão em mão.

Mas saldo que é bom
só na próxima estação.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Pão e Drops


 

Na cantina da escola era assim:

 – Seu Antonio, me dá meio lanche!

E se o pai desse moeda extra:

 – Seu Antonio, me dá meio lanche e uma fita!

 

Lanche era embrulhinho de mortadela

Fita era tanta bala enfileirada...

E Seu Antonio era isso pra mim:

Pão e drops na hora do recreio.

 

Depois vinha Dona Bia e a gramática,

Aí era lembrar do pão e arrotar o recheio

E fazer outro tipo de fita

Pra fugir da análise sintática.

 

Pra que tanta palavra enfileirada feito drops?

Pra que frase assim tão recheada como pão?
 
 
 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Doa@dor



Tuitei
Postei
Bloguei
Anunciei
E paguei:
“Doo córneas.
Hoje mesmo.
Hashtag doa@dor.”

Afinal,
Por que lua,
Pra que luz,
Se meus olhos
Não têm mais
Permissão
Pra demorar
Nos seus?



segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Cacto


Ando seco seco seco seco
Algo em mim recusa mar e rio
Nem transpiro nem me evaporo
Enxugo involuntariamente
Cada forminha de gelo
Que teima em colorir de plásticos
Este meu novo mundo frost free
Penso que amadurecer seja isso
Reter os líquidos dentro de si
Compreender como sinônimo de conformar-se
Isso
Um ser assim conformado
Resignado árido esturricado
Como eu
É um ser que se fecha e resseca
Que não mais aproveita a água do corpo
Porque entendeu à força e enfim
Que certas coisas são como são
Que certas dores chovem pra nada
Que há amores que nunca serão
Melhor murchar com placidez
E aprender que a vida
Sendo vida
Chega um dia ao estágio de...
Cacto



segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Indisponível


Já tem osso virando farelo
Tinta escorrendo da página
Borrão rasurando a alma
Que o corpo é festa da ruína
Nem mais sombra de dúvida
Nem mais terra à vista
Nem farol nem sol nem sinal
Viga sem força sustentável
Vaga sem conforto reclinável
Vida sem receita palatável
E tudo cede, essa falta que me corrói
É muita sede, esse talho que vaza e dói
– e pensar que tudo isso começou
(meu vagão descarrilou,
meu batente apodreceu,
minha ponte despencou)
no dia em que a saudade impiedosa se acercou
– e pensar que tudo isso começou
(minha canção desafinou,
minha novela embarrigou,
meu roteiro empastelou)
no dia em que você,indisponível, se afastou


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Mal-me-quero


No vai da valsa
Desta minha vidinha
De estações tropicais
Mal e porcamente
Delimitadas,
Semeei canteiros
Feito um tolo,
Mesmo quando
Primavera
Quem dera...
Quimera.

E assim como hera,
Escandente hera,
Subiam-me viços,
Braçadas, ternuras,
E com meu dedo de Tistu
Eu regava o mundo
De verdes e bondades,
Carícias e botânicas,
Uma alegria pueril,
O bem não importa a quem.

Mas agora prevejo:
Meus anos caducos
Serão penosos,
Os meus anos caducos...
Secos e estéreis,
Os meus anos caducos...
Pois detectei enfim
E tarde demais
A praga essencial,
O lapso fatal.

Fosse chuva
- De prata -
Ou fosse sol,
Copo de leite
Ou girassol,
Eu me esquecia
Todo dia
De ir gostando
- Um pouco
De cada vez -
Da figura em mim,
A florada intrínseca,
A pétala fundamental,
Minha alma-minha palma,
O meu eu-jardineiro
Que não reguei.

E agora
E na hora
De nossa
Solidão final,
Amém,
Não haverá saída
Nem margarida
Nem bendito fruto
Nem tarja preta
Que me adube o árido,
Que me sossegue o facho,
Que me acalme os nervos,
Que me aplaque a dor
De ser eu
Minha única
E insatisfatória
Companhia.



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Madrugada Subjuntiva


E se eu não amanhecesse?
Avivasse labaredas no meu ninho de dejetos e mormaços
E deixasse que um lento vapor me cozinhasse?
E se na chaleira corroída do meu banho-maria,
Eu largasse sua mão e me afogasse?
E se eu sorvesse dessa nuvem o que de etéreo houvesse
e voasse, voasse, até que algum Ícaro me despencasse?

E se eu não mais respirasse?
Rompesse cada artéria até meu mar vermelho vazar-se?
Lençol atado no pescoço até que o lustre despencasse?
Um banquete pútrido para que as tripas me delgassem?
Uma rainha louca que me cortasse e embaralhasse?
E se, em vez disso, eu só não mais sonhasse
– já não seria um fim que me bastasse?