Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres



segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Sacada

Procuro rede de proteção
Contra meu ímpeto intergaláctico
Meu choro performático
Meu chilique programático

Procuro rede de proteção
À prova de um tolo dramático
Complexado enfático
Obcecado monotemático

Procuro rede de proteção
Para meu tédio monástico
Meu domingo de frio e Fantástico
Minha sacada de flores de plástico

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Vivências

Pus o nariz pra fora da órbita
Tinha cada céu que eu despenquei
Fui parar no rabo de um cometa
Acordei sabendo que voei

Pus os pés pra fora da janela
Veio tanto ar que eu gangrenei
Fui parar na quadra da Portela
Tropecei pensando que sambei

Pus o pau pra fora da cueca
Era puro pó que eu espirrei
Fui parar no estojo da boneca
Me pintei, me pintei, me pintei

Pus a vida pra fora da gaveta
Tinha tanto nó que eu desatei
Fui parar no colo do capeta
E acabei tramando contra o rei

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Desta Vez

Diga você desta vez, diga
Tudo o que eu costumo lhe dizer
Diga você desta vez
E eu só fico aqui no vácuo,
Quieto, contrito, atento
Eu só fico aqui no ninho
Varado, vidrado, encantado
Enamorado da sua voz, sua cadência,
O volume e a potência.

Diga você desta vez, diga
Tudo o que eu penso de você e lhe derramo
Diga que você também pensa de mim e me derrama
Diga as palavras exatas que inventei pra lhe caberem
Diga como se fossem suas, frases prontas pra me vestirem

Diga você desta vez, diga
Diga que perde sangue, cai o cabelo,
Queima a pele, gela a espinha
Diga tudo o que padeço eu
Como se fosse seu
O corpo que definha

Diga você desta vez, diga
Peça, implore, declare, reitere
Bata na tecla da mesma sinfonia
Declame de volta a minha elegia

E, por um tempo meu, curto que seja,
– vento súbito que me pega,
chuva rápida que me rega –
eu ficarei respondendo sim, sim, sim, sim...
Todos os sins que você nunca me entrega.


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Malbec

Sim, eu tomo cuidado, muito cuidado,
Enquanto passo água pra escorrer o pó de solidão e bile,
Que acumula na pele jateada de cada habitante da cristaleira.
Mas se quebrar a taça no tilintar do inox da torneira,
Antes que desça pelo ralo o mais reluzente fragmento de festa,
Corro e escolho, dentro da porca pia, o caco mais bonito.

E com ele circuncizo-me pontas, mutilo-me em lascas,
Desbravo-me caminhos de coágulos vermelhos,
Entre encruzilhadas de pelos e colônias de acnes,
Jorrando-me de pirraça, pra manchar o tapete cor de creme
Que me anula há anos, com sua falta de viço,
No falso redemoinho de minha sala sem visitas.

Gélido, amparo-me torto na gordura pré-socrática
dos azulejos decorados de minha vã cozinha.
Recolho os outros cacos da taça quebrada
E com eles encho um prato fundo de louça:
Faço a última refeição, ‘estilhaços à moda do chef’.
Meto os dentes, ali mesmo, com os bagos rompidos
E a barriga encostada na velha pia de pedra lascada.

Suando de ciúme, intacta no óxido gasto
Da única bandeja de minha não-mobília,
A inútil garrafa de malbec, terrivelmente resfriada,
Rubra me assiste mastigar com cuidado,
Sim, com muito cuidado,
dez vezes cada bocada
– de cristal.


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Necessidade Básica

Antes que eu me desande a escrever,
bem sei,
muito há de bom para ler.
E mais do que deitar leitura,
viver se impõe
na forma encompridada
de outro verbo imperativo:
vivenciar.

Mas para que a vida palpável?
Ou a leitura segura?
Se dentro de mim
urge o tempo quente da criação?

O que fazer
se na altura das têmporas
me formigam frases completas,
instando papel pautado
clamando tinta de impressão
rogando alfabetos?

Como segurar, no ventre inchado das ideias,
todas essas orações gestadas em ímpeto?
Como?

Concebidas em frenesi,
sentenças já bem formadas
implorando por jorros de aborto.
Retê-las é reter-me
Impedi-las de vincarem sulcos
no celulose virgem das páginas em branco
é como encruar-me

É como me autoimpor
a secura de um cacto
a aridez a me arder na vista
o vômito ácido hospedado na boca
o sêmen farto a borbulhar inútil.

Não.
Não posso enclausurar minhas palavras
na prisão perpétua da autocrítica.
Não posso ser meu algoz
a me reprimir inclemente.

Pesam-me os anos desperdiçados sem letras
– e isso já não basta?
Sou um velho afoito
por queimar atrasos.
Sou um jovem nascendo
para as possibilidades da prosa.

Que venham depois os detratores
e que me roubem o sono
– mas eu mesmo já não o tinha excluído
de minhas noites inquietas?

Que venham os críticos,
os juízes,
os advogados,
os donos do mundo
com seus decretos
– eu saberei, afinal, distribuir
pesos e medidas.

Quero antes que me afrontem
meus próprios verbos
a temer primeiro
os adjetivos adversários.
Quero os substantivos abstratos
enfeitando minhas ficções de concreto.

E se o medo agora me dói
já é então a dor de crescimento.

Se a coragem me empurra
já é então a certeza de liberdade.
Eis que o discurso flui,
vertendo fagulhas,
raios, lampejos.

Estou pronto.
O que li já me serve e me ampara
O que eu já vivi me instiga e me desafia
Achem o que acharem,
julguem o que for.
A pretensão me domina,
a decisão impera.
Opção já não há.

Eu quero, agora, é escrever.