Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres



segunda-feira, 1 de julho de 2013

Este seu colete


Couro bom que é esse
Couro seu de Lampião
Intransponível escudo
Impermeável textura
Couro de fibra por fibra
Sem fibra
Couro cara de paisagem,
Couro cara de pau,
Que devolve ao outro
O que também é seu, não só dele.
Como se não fosse seu, só dele.

Couro bom esse seu,
Que culpabiliza o outro,
Responsabiliza o outro,
Desestabiliza.
Couro que tira o corpo fora,
Tira o couro fora
Do outro
Couro forte de tão covarde,
Cofre forte de couro pusilânime,
Tão forte, tão fraco,
Força que é fraca,
Pois que rebate,
Isenta-se,
Couro que medra,
Couro de merda.

Couro bom esse seu,
Empuxo de física,
À prova de dor,
Que a dor é só do outro,
O amor é só do outro,
A loucura do outro
A cabeça do outro
Bobagem do outro.

Couro bom esse seu
Que nada nunca fez,
Fosco nem reluziu
Atado nem seduziu,
Nada nunca prometeu,
Couro de águia
Com sede de fígado,
Couro de Sísifo,
De pedra sobre pedra,
A mesma mesma pedra,
O mesmo mesmo peso
De pedra
Que quem carrega é o outro,
Quem embala é o outro,
O outro alimenta e aninha,
O outro que tudo confunde,
Que troca os sinais,
O outro sozinho,
O outro, não o do couro,
O outro
Sozinho.


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