Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres



segunda-feira, 31 de março de 2014

Cuspe


Desespero demais:
amar alguém
e nunca saber
qual o gosto
da boca,
porque sua boca
  a ocupam
com  gosto.

Não vê?
Minha pena de morte
são seus lábios
proibitivos.
Como eu queria
o indulto de poder
me abençoar de cuspe,
me zonzear na textura
da sua língua.
Como fazer para orbitar
no céu palato?

Mas fui amar quem já tem dono.
E agora isto: morrer ou morrer.




segunda-feira, 24 de março de 2014

Santo do pau oco



Me chamar de prostituto é pouco
Canalha, vadio, escroto, maluco.
Mas há santidade nos afetos do coração
Por isso não me venham com sermão
Treslouquei e treslouco o que puder
Forniquei e fornico o que mexer
Perpetrei e perpetro o mais que der
Sapequei e sapeco se eu quiser

Porque tudo se anula, seja o que for,
Me resolvo ao voltar pro meu amor

 
 

segunda-feira, 17 de março de 2014

Força da natureza


1.

 Repensei toda minha vida

Quando vi que brotou do chão uma muda,

Que salpicou de folhas meu juízo,

Que animou de árvores o meu sonho

 – adormecido.

 

Não sei se foi poda de estação,

Marca de adubo ou dança de índio.

Só sei que repensei toda minha vida

E achei nela a raiz forte que é você.

  

2.

Repensei toda minha vida

Quando vi que pingou do céu uma cor,

Que molhou de luz meu pesar,

Que tingiu de tons meu humor

 – esmaecido.

 

Não sei se foi chuva de prata,

Cocô de passarinho ou distração do arco-íris.

Só sei que repensei toda minha vida

E achei nela esta aquarela que é você.






 

segunda-feira, 10 de março de 2014

Felizes para sempre




Triste ilusão romântica
Ontem deixei que chovesse
Em mim.
Queria regozijos, liberdades
Pisar em poças, molhar a alma
E, se coragem surgisse,
Até um grito molhado
De prazer.
Qual nada!
Eu tremia tanto os ossos
Que voltei correndo
Pra qualquer conforto
Quente e felpudo,
Seco e seguro!
Não que minha constituição seja
De açúcar
Mas não nasci definitivamente
Para rompantes, enchentes,
Piscinas e amantes.
Casei ontem,
Depois da chuva,
Com meu edredom.










segunda-feira, 3 de março de 2014

Agorinha agorinha



Se eu pudesse,
Deitado de bruços

Nesta mesma cama
Pelo jeito eterna

Em que praticamente nasci,
Ah se eu pudesse,

No curto espaço de tempo
De um mero piscar de olhos,

Eu dormia e acordava
Agorinha agorinha

Como se tivesse morrido
Por 24 horas ininterruptas

E assim assim,
Revigorado e solerte,

Agorinha agorinha,
Neste admirável tempo novo,

Que então nada mais seria
Do que o amanhã de manhã

De um doce despertar,
Eu zarpava contente

Agorinha agorinha
Pelas quebradas de um sonho,

Até bater à sua porta
E alcançar exultante

Algum sentido que fosse
Para o que chamam de vida.