Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres



segunda-feira, 17 de março de 2014

Força da natureza


1.

 Repensei toda minha vida

Quando vi que brotou do chão uma muda,

Que salpicou de folhas meu juízo,

Que animou de árvores o meu sonho

 – adormecido.

 

Não sei se foi poda de estação,

Marca de adubo ou dança de índio.

Só sei que repensei toda minha vida

E achei nela a raiz forte que é você.

  

2.

Repensei toda minha vida

Quando vi que pingou do céu uma cor,

Que molhou de luz meu pesar,

Que tingiu de tons meu humor

 – esmaecido.

 

Não sei se foi chuva de prata,

Cocô de passarinho ou distração do arco-íris.

Só sei que repensei toda minha vida

E achei nela esta aquarela que é você.






 

segunda-feira, 10 de março de 2014

Felizes para sempre




Triste ilusão romântica
Ontem deixei que chovesse
Em mim.
Queria regozijos, liberdades
Pisar em poças, molhar a alma
E, se coragem surgisse,
Até um grito molhado
De prazer.
Qual nada!
Eu tremia tanto os ossos
Que voltei correndo
Pra qualquer conforto
Quente e felpudo,
Seco e seguro!
Não que minha constituição seja
De açúcar
Mas não nasci definitivamente
Para rompantes, enchentes,
Piscinas e amantes.
Casei ontem,
Depois da chuva,
Com meu edredom.










segunda-feira, 3 de março de 2014

Agorinha agorinha



Se eu pudesse,
Deitado de bruços

Nesta mesma cama
Pelo jeito eterna

Em que praticamente nasci,
Ah se eu pudesse,

No curto espaço de tempo
De um mero piscar de olhos,

Eu dormia e acordava
Agorinha agorinha

Como se tivesse morrido
Por 24 horas ininterruptas

E assim assim,
Revigorado e solerte,

Agorinha agorinha,
Neste admirável tempo novo,

Que então nada mais seria
Do que o amanhã de manhã

De um doce despertar,
Eu zarpava contente

Agorinha agorinha
Pelas quebradas de um sonho,

Até bater à sua porta
E alcançar exultante

Algum sentido que fosse
Para o que chamam de vida.




segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Marasmos




Vem com pedras e patas
Rompe o hímen dos céus
 
Traz espadas e farpas
Enche a casa de réus
 
Tira as tampas e teimas
Despe o quarto de véus
 
Vê se ferve essa nuvem
Cusparadas de Deus
 
Descarrila esse trem
Que os apitos são meus
 
E eu cansei de marasmos
Não embalo Mateus
 
 
 

 

 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Condão



 
Quer saber mesmo?
Pelo andar da carruagem,
pelo sabor das marés,
pela lua de Calígula,
acabo noite dessas
abrindo mão
dos meus pruridos.

E foda-se
a pusilanimidade:
encaro inventar
minha rota
final,
minha cama
eterna,
minha louca
escapada.

Mas enquanto espero
pelo condão do rompante,
ué!,
fito a lua,
e, como você,
imperador-artista,
sigo amando
o impossível
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Alô, é do jornal?


 
E se eu publicasse
anúncio classificado?
“Troco meu amor imenso
e fúlgido
- não correspondido -
por uma amizade calma
e sólida"
 
Alguém aceitaria
minha  oferta?
 
Sim.
Os sábios ensandecidos
Os lúdicos não monogâmicos
Os seres verdadeiramente libertários
“As loucas e os lazarentos”
 
Pois só eles terão, por certo,
a brava coragem de levar para si,
arrancado sem dó nem piedade
do húmus cálido do meu peito,
este incômodo e conturbado
amor dolorido
 
Porque eu
zonzo de paixão
penso que já não posso
mais
com isso
 
 
 
 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Enfeitiçado


          "Só pode estar enfeitiçado”
Você me disse
 Feitiço
Pois que seja esse
o nome do diagnóstico

Mas como se desenfeitiça
o que já sedimentou
para além da eternidade?
Sim, eu quero ser desenfeitiçado
Por misericórdia

Pois que me lateja a alma
Sangra a seco
Um invisível rio caudaloso
Inútil ebulição
Mão única
Mente e corpo formigando
esse insistente estado
de impossibilidade

O que fazer?
Quem quebrou a minha tecla stop?
Quanto tempo vai levar
até que este retesado
impotente amor
retórico platônico
pare de doer?
Lento serrote fatiando o coração

Quanto tempo ainda
até que
este mais puro
sentimento-vida
vire:
triste nostalgia?
frustrada resignação?
saudade anestesiada?

Não que eu preferisse
que tudo terminasse
assim
Margens plácidas

Mas já não é mais caso
de preferência.
É urgência absoluta.

“Só pode estar enfeitiçado”
Você me disse
Pois então:
Quanto tempo mais?
Por misericórdia