Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Menino Eu
Eu nasci menino
Que pensa
Com uma lista infinita
De palavras
Feias e belas
Novas e velhas
Na cabeça
De menino
Que pensa
Lista de línguas mortas
Lista de sílabas tônicas
Lista de números primos
Lista de inúmeras primas
Lista de rimas mofadas
Lista de dores quebradas
Lista de verdades fatiadas
Lista de tudo
Sem pressa
Sem método
Quisera fosse
Sem ninguém
Por perto
Mas na minha casa
Alguém sempre passava
E quando alguém passava
De coisas me chamava
Coisas bem difíceis
Coisas bem datadas
Coisas bem estranhas:
- Olha o menino compenetrado!
- Eita menino introspectivo!
- Mas que menino intelectual!
- Que porra de menino absorto!
(Essa era minha vó
Desbocada vó desdentada)
Na minha casa
Onde alguém sempre passava
("Quantos mais
Vão passar hoje?",
eu sempre pensava)
Um amigo da família
Passou e exclamou:
"- Nooooosa!
Esta criança anda tão
Sorumbática!"
Eu não reclamava
Mas ia pesquisar
E fui aprender
O que é que sorumbava
"Eu não sou triste
Adultos é que são",
cheguei à conclusão.
"Criança quieta
Não é criança infeliz.
Pode ser sinal
De que uma porção
De mim
Esteja querendo
Crescer
Um fragmento
De mim
Pode ser
Mas é só"
Eu nasci menino de listas
E por isso
Pensava, pensava, pensava...
E não falava
Até que passava
Mais alguém
Que me prensava:
- Macambúzio!
- Taciturno!
- Cismador!
- Meditabundo!
E vinha minha vó
Desbocada vó desdentada:
"- Aí, garotão,
Quieto assim
Só pode estar pensando
Em namorada..."
Namorada?!
Pensando bem
Mundo, mundo, vasto mundo,
Melhor ouvir isso
Do que meditabundo
Naquela casa
Casa invadida
Casa tomada
Hiperlotada
Cheia de gente
Que passava
E não me largava
Naquela casa
O melhor era nunca
Perder de vista
Na prateleira manchada
O dicionário mofado
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Noves fora
Aritmética esquisita
Que subtrai amídalas
E multiplica as vozes
Que soma as dores
E alonga estimativas
Que socializa a raiva
E aprisiona a brisa
Que coleciona cancros
E distribui divãs
Que triplica as ânsias
E armazena vômitos,
Que aumenta as lâminas
E nem apara arestas.
Aritmética esquisita,
Como queres demonstrar?
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Com licença
Com licença, eu quero passar
Pro outro lado do espelho
Com licença, eu vou à luta
Contra piolho no pentelho
Com licença, tenho de seguir
A rota de um beija-flor
Com licença, tenho de fugir
Da fé no meu salvador
Com licença, eu me retiro
De cena e de cima da morta
Com licença, é meia-noite,
Traz minha abóbora da horta
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Três troças
1.
Decorei o samba errado
Aceitas a contradança?
Derrubei sangue gelado
Será que mancha?
2.
Quem conta um conto
Aumenta os cacos.
Quem tudo quer
Engole os sapos.
3.
Da laranja quero um gomo
Do pulmão falta um pedaço
Se essa lua fosse minha,
Terezinha, aquele abraço!
Decorei o samba errado
Aceitas a contradança?
Derrubei sangue gelado
Será que mancha?
2.
Quem conta um conto
Aumenta os cacos.
Quem tudo quer
Engole os sapos.
3.
Da laranja quero um gomo
Do pulmão falta um pedaço
Se essa lua fosse minha,
Terezinha, aquele abraço!
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Meu grito
Pois quando um zunido
Ocupou as duas vagas laterais
De minha cabeça latejante,
Abri meu portão cheio de dentes
E gritei seu nome composto
De cuspes e consoantes,
Enquanto cerrava, por trás das lentes,
As duas simétricas venezianas,
Molhadas e remelentas,
Desta minha gasta face
Manchada de mágoas e Munchs
E máculas resistentes.
Ocupou as duas vagas laterais
De minha cabeça latejante,
Abri meu portão cheio de dentes
E gritei seu nome composto
De cuspes e consoantes,
Enquanto cerrava, por trás das lentes,
As duas simétricas venezianas,
Molhadas e remelentas,
Desta minha gasta face
Manchada de mágoas e Munchs
E máculas resistentes.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Súplica
Quer que peça mais como?
Quer que implore?
Que ajoelhe imprecações?
Que suplique em gosmas?
Que chore em caldas?
E me dissolva em babas?
Pois faço.
Peça que faço.
Uma fraqueza a mais
Não vai ruir meu forte.
Fraquejo o quanto for
pra enrijecer meu leme
e acarinhar meu prumo,
e assegurar meu norte.
Quer que implore?
Que ajoelhe imprecações?
Que suplique em gosmas?
Que chore em caldas?
E me dissolva em babas?
Pois faço.
Peça que faço.
Uma fraqueza a mais
Não vai ruir meu forte.
Fraquejo o quanto for
pra enrijecer meu leme
e acarinhar meu prumo,
e assegurar meu norte.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Noite de hotel
1.
Ar com barulho condiciona o sonho,
Sem meia nos pés nem me suponho.
Cacos de taça, gim de frigobar,
Veneno na tomada, asas de picar,
Escuro que ameaça, vulto que perpassa,
Quantos pijamas ainda furo de fumaça?
2.
Pena de ganso é vida adormecida.
Sonho no sonho, certeza distorcida.
Choro na fronha, afago no sofrer.
Cortina forrada, ensaio pra morrer.
3.
A insônia eu embalo, não perturbar.
O desejo eu derramo, favor arrumar.
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