Ela disse tira
ele disse tira
ela disse calma
ele disse sempre
ela disse até parece
Ele disse já fui
ela disse ah
ele disse mais
ela disse até parece
Ele disse atrás
ela disse nunca
ele disse minha mulher deixa
ela disse:
too much information, baby
Ele disse foi mal
ela disse foi rápido
ele disse nunca acontece
ela disse sempre comigo
ele disse até parece
Ela disse meu marido horas
ele disse ah
ela disse e o dele ó
ele disse até parece
ela disse uma régua
ele disse:
too much information, baby
Ela disse vamos
meu marido vai chegar
– da reunião
Ele disse vamos
minha mulher vai voltar
– do dentista
Ela disse:
ele inventa compromisso
casei com um galinha
Ele disse:
ela inventa dor de dente
casei com uma vaca
Too much information, baby,
repetiram juntos,
já dentro do elevador.
E riram.
Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Sol e Lua
O sol congelou minha piscina
Na manhã em que acordou com baixa estima
Rasguei a sunga, pus a casa à venda:
Não posso depender do humor do rei
A lua resolveu cair da escada
Na noite em que no alpendre eu me deitei
Nem posso suspeitar que foi má fé:
Ao menos tive queijo no café
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Irritado
Aparentemente vivo,
Resvalo a rodo
No viscoso produto
De minhas irritações cotidianas
Tento estancar a gosma
E deslizar prudente
Pelo tapete áspero
De meu beco sem saída
Mas me encobre nova onda
Dessa borbulha furibunda
Que me repele os pares
E me impele às úlceras
Aparentemente vivo,
Afrouxo ainda mais os cintos
De minha turbulência acre
E aguardo a queda fatal.
Resvalo a rodo
No viscoso produto
De minhas irritações cotidianas
Tento estancar a gosma
E deslizar prudente
Pelo tapete áspero
De meu beco sem saída
Mas me encobre nova onda
Dessa borbulha furibunda
Que me repele os pares
E me impele às úlceras
Aparentemente vivo,
Afrouxo ainda mais os cintos
De minha turbulência acre
E aguardo a queda fatal.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Passo a Passo
Hoje eu só passei vontade:
De um bolo, de um colo.
De um canto, de um júbilo.
Hoje eu só passei da conta:
Gracejos, arremedos,
Protestos, descalabros.
Hoje eu só passei apertos:
Na boca do estômago, no intestino delgado,
No meio das pernas.
Hoje eu só passei a ferro:
Este meu coração que não esquenta,
Este meu desalinho que me inquieta.
Hoje eu só passei pomada:
Mas lenimentos são inúteis
Para ferida assim tão sangrenta.
Hoje eu só passei bem longe:
E nem vem com pique-esconde,
Tenho pressa e dor na glande.
Hoje eu só passei foi trote:
Desafinei no samba-rock
E inventei-me novo TOC.
Hoje eu só passei foi raiva:
Até entender que não sou eu que passo,
Que nem sei meu compasso.
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Duas Amantes
Toda vez que me deito com Adélia,
Poema puxa poema
E me estoura a bic no lençol.
Sei que é sinal de inveja boa
E fertiliza o bloco de papel A4
Que finjo esquecer ao lado da cama
Para momentos como este,
Em que palavras são sirenes
E a ambulância sou eu.
Sempre que me encaixo em Clarice,
Prosa aduba prosa
E me florescem etéreas fábulas,
Feito penas de ganso
Que escapem de prenhas fronhas.
Então prescrevo fiapos de sentença
E receito fios da mítica meada
Com letra apressada de doutor
E insônia aflitiva de amador.
Mas, claro, não me permito pistas nem rastros:
Sem consciência de florestas,
Ecologicamente incorreto,
Rasgo tudo na manhã seguinte,
Celulose inútil, letras de aborto.
E, pleno de gozo, me absolvo:
É meu ritual muito secreto
Para seguir amando as duas,
Adélia e Clarice, Clarice e Adélia.
Poema puxa poema
E me estoura a bic no lençol.
Sei que é sinal de inveja boa
E fertiliza o bloco de papel A4
Que finjo esquecer ao lado da cama
Para momentos como este,
Em que palavras são sirenes
E a ambulância sou eu.
Sempre que me encaixo em Clarice,
Prosa aduba prosa
E me florescem etéreas fábulas,
Feito penas de ganso
Que escapem de prenhas fronhas.
Então prescrevo fiapos de sentença
E receito fios da mítica meada
Com letra apressada de doutor
E insônia aflitiva de amador.
Mas, claro, não me permito pistas nem rastros:
Sem consciência de florestas,
Ecologicamente incorreto,
Rasgo tudo na manhã seguinte,
Celulose inútil, letras de aborto.
E, pleno de gozo, me absolvo:
É meu ritual muito secreto
Para seguir amando as duas,
Adélia e Clarice, Clarice e Adélia.
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Ligado
Na taça embaçada
De sofreguidão
Goles velozes
Volumosos goles
Não passam de gotas
De rubra ilusão
Incompetência da safra
Malogrado teor
Por que falham sempre,
Inútil zonzeira,
Fugaz estupor?
Pois sigo solerte
E suo insone
Não passo de volt
No aceso da noite
No espasmo da dor
De sofreguidão
Goles velozes
Volumosos goles
Não passam de gotas
De rubra ilusão
Incompetência da safra
Malogrado teor
Por que falham sempre,
Inútil zonzeira,
Fugaz estupor?
Pois sigo solerte
E suo insone
Não passo de volt
No aceso da noite
No espasmo da dor
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Dois pedidos
1.
Oh, gota apressada,
Que escapa da nuvem
Antes da profusão,
Pinga tua graça afoita
– solitária anunciação –
Em minha fronte inepta,
Aspereza da imaginação.
2.
Vem, lépida fagulha,
Que rejeita o graveto
No auge da fricção,
Espalha tua gana aflita
– prematura combustão –
Em meu deserto de bruma,
Profundeza da solidão.
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