Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Passatempos em dezembro

Raios afundam na terra
Vidraças pranteiam a estação
Minha família e eu
Afogados dentro de nós.
– Passa pra dentro todo mundo!
Meninas com suas hidrocores
No sulfite sem pauta desenham corações.
Meninos lustrando celulóides
Na fórmica azul deslizam seus botões.
– Hoje não vai ter janta?, protesta Vó Clarice.
– Pro gol!, avisa o filho mais velho.
– Ai, minha Santa Maria!, a mãe pro trovão.
– Bonança com sete letras, enuncia o pai.
– Me empresta a tacadeira, chora o caçula.
– Só mais cinco minutos de jogo, avisa a mãe.
E o pai: – Sossego com três letras...
E outro trovão: – Ai, protege, Nossa Senhora!
E a avó: – Não vai ter...?
– Sabe de carro com agá?, pergunta a irmã.
– Sei: pra mim só falta fruta!, ameaça a outra.
– Stop é chato: buraco?, convida o tio solteirão.
Ignóbil, irascível, cognitivo:
Sou eu, enforcando três vezes o primo repetente.
Ao que protesta o agregado: – Assim não brinco mais!
E a mãe: – Olha a briga, forca é instrutivo!
E o pai: – É só coisa de moleque, com cinco letras...
E a avó: – ...janta?
Raios afundam na terra
Vidraças pranteiam a estação
Minha família e eu
afogados dentro de nós.


Nenhum comentário:

Postar um comentário