"Só pode estar enfeitiçado”
Você me disse
Feitiço
Pois que seja esse
o nome do diagnóstico
Mas como se desenfeitiça
o que já sedimentou
para além da eternidade?
Sim, eu quero ser desenfeitiçado
Por misericórdia
Pois que me lateja a alma
Sangra a seco
Um invisível rio caudaloso
Inútil ebulição
Mão única
Mente e corpo formigando
esse insistente estado
de impossibilidade
O que fazer?
Quem quebrou a minha tecla
stop?
Quanto tempo vai levar
até que este retesado
impotente amor
retórico platônico
pare de doer?
Lento serrote fatiando o coração
Quanto tempo ainda
até que
este mais puro
sentimento-vida
vire:
triste nostalgia?
frustrada resignação?
saudade anestesiada?
Não que eu preferisse
que tudo terminasse
assim
Margens plácidas
Mas já não é mais caso
de preferência.
É urgência absoluta.
“Só pode estar enfeitiçado”
Você me disse
Pois então:
Quanto tempo mais?
Por misericórdia