Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres



segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Marasmos




Vem com pedras e patas
Rompe o hímen dos céus
 
Traz espadas e farpas
Enche a casa de réus
 
Tira as tampas e teimas
Despe o quarto de véus
 
Vê se ferve essa nuvem
Cusparadas de Deus
 
Descarrila esse trem
Que os apitos são meus
 
E eu cansei de marasmos
Não embalo Mateus
 
 
 

 

 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Condão



 
Quer saber mesmo?
Pelo andar da carruagem,
pelo sabor das marés,
pela lua de Calígula,
acabo noite dessas
abrindo mão
dos meus pruridos.

E foda-se
a pusilanimidade:
encaro inventar
minha rota
final,
minha cama
eterna,
minha louca
escapada.

Mas enquanto espero
pelo condão do rompante,
ué!,
fito a lua,
e, como você,
imperador-artista,
sigo amando
o impossível
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Alô, é do jornal?


 
E se eu publicasse
anúncio classificado?
“Troco meu amor imenso
e fúlgido
- não correspondido -
por uma amizade calma
e sólida"
 
Alguém aceitaria
minha  oferta?
 
Sim.
Os sábios ensandecidos
Os lúdicos não monogâmicos
Os seres verdadeiramente libertários
“As loucas e os lazarentos”
 
Pois só eles terão, por certo,
a brava coragem de levar para si,
arrancado sem dó nem piedade
do húmus cálido do meu peito,
este incômodo e conturbado
amor dolorido
 
Porque eu
zonzo de paixão
penso que já não posso
mais
com isso
 
 
 
 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Enfeitiçado


          "Só pode estar enfeitiçado”
Você me disse
 Feitiço
Pois que seja esse
o nome do diagnóstico

Mas como se desenfeitiça
o que já sedimentou
para além da eternidade?
Sim, eu quero ser desenfeitiçado
Por misericórdia

Pois que me lateja a alma
Sangra a seco
Um invisível rio caudaloso
Inútil ebulição
Mão única
Mente e corpo formigando
esse insistente estado
de impossibilidade

O que fazer?
Quem quebrou a minha tecla stop?
Quanto tempo vai levar
até que este retesado
impotente amor
retórico platônico
pare de doer?
Lento serrote fatiando o coração

Quanto tempo ainda
até que
este mais puro
sentimento-vida
vire:
triste nostalgia?
frustrada resignação?
saudade anestesiada?

Não que eu preferisse
que tudo terminasse
assim
Margens plácidas

Mas já não é mais caso
de preferência.
É urgência absoluta.

“Só pode estar enfeitiçado”
Você me disse
Pois então:
Quanto tempo mais?
Por misericórdia