Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres



segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Até quando?



Boicoto meu sono
quando provoco seu desejo
Porque você vai até certo ponto
e eu desembesto
Sobra uma dor tão profunda
que eu me interno
Mas minha casa de repouso
é sem telha como eu
sem trinco como eu
um descampado
Passo frio
desidrato
convulsiono
Mas de novo me encanto
e me armadilho
e me golpeio
E de novo
você me escapa
e me rechaça:
“Agora não posso.”
Então eu sonho que morro
que desintegro
sonho que canso
Quero ver se deste ano
não passo


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Trauma-língua


 

Quando a mãe acamou no hospitá,
Lá foi seu menino, “bora visitá”,
E disse um amor no ouvido dela:
“- Sem a senhora, nada fica iguá.”

 
Foi aí que a mãe enferma
Desatou num pranto a chorá,
E desembesta a vó carola
A ralhá, ralhá, ralhá...

 
”Menino atrevido,
Doença que Deus pôs, Deus vai tirá.
Xô, seu abestado, já,
Passa do quarto, borandá!”

 
O menino, que era eu,
Justo eu (e seria quem?),
No ouvido de ninguém
Disse nunca mais nada não.
 
 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Chave de fenda



Triste figura sem moinhos pra me confundir,
Aguardo minha insanidade pra ontem.
Que demora é essa?
Meu prazo de validade já era.
Oh, irresponsável razão que não afrouxa!
Já apelei até pra chave de fenda.
Meu enxoval tem camisa de força.
Um radar tantã sob encomenda.
Ah, inútil pranto descontrolado,
Já transbordei o mar, afoguei o planeta,
e não me atraca a nau dos insensatos!
Que amor é esse, louco de pedra,
Que me nega a baba no canto da boca,
E me interdita o outro lado do espelho?

Que amor é esse pelo qual enlouqueço,
Se ele mesmo não me enlouquece?
 
 
 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Tolo romântico


A matéria que me constitui

É a delicadeza débil

Dos sofredores inatos

Sou composto de mágoa, névoa,

Lágrima e equívoco

Adivinho em minha fórmula

Um componente rígido

Que me prende os gases,

Me boicota os ânimos,

Limita o meu alcance:

Uma vida de relance.

     

Minha constituição física

É pontiaguda e tensa

Cultivo a minha dor

E assino minha sentença:

Sou o retrato esmaecido

De um poeta tísico.

  

Interdito uma felicidade

De olho em outra – que nunca terei

Emboto um desejo

Sonhando com outro – me apaixonei!

Troco o certo pelo duvidoso

E, tolo romântico, nem vejo que errei.