Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Enquanto o homem
Pontes reproduzem lampejos
Ruas buzinam ansiedades
Pedras acumulam coragens
Paredes descascam verdades
Bois pacientam destinos
Galinhas relativizam sentidos
Rosas vicejam desculpas
Morangos sedimentam paixões
Fogueiras estalam rompantes
Estátuas prometem revanches
E os dromedários descansam ao sol
Enquanto o homem, ah, o homem corre
– que ele só tem um tempo,
o maldito tempo de sua vida.
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
Vida besta
Venho por meio desta
Caído no fim da festa
Desprezo que me molesta
Reboque de cal na fresta
Exame que nunca atesta
Mentira não me detesta
Esbanja mas não empresta
Recorta sua mão honesta
Franzido me rasga a testa
Cultivo cova funesta
Novo arranjo velha seresta
Silêncio de quem protesta
Refoga um quilo de floresta
Tempera a boia da indigesta
Espanha suspende a sesta
Quem ri da puta modesta
Meu mar de bosta que infesta
Rompante que ainda me resta
Mas que porra de rima é esta?
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Meu reino encantado
Sempre que morro
deixo miolo de pão como rastro
e até hoje não houve meios
de que um passarinho faminto
me salvasse do faz de conta
e engolisse meu chão de bromato
Então eu volto.
Sempre que volto
engulo paredes de confeitos
mastigo chaminés de marzipã
devoro armários de nutela
até que engordo de novo o dedo
e chamo a bruxa pro serviço sujo:
mastigar minha vida sacarina
Então eu morro.
Figurante 3D sem nome nos créditos,
assim é que faço e refaço a travessia,
pensando que vida é fábula,
achando que morte é sono,
rezando pra que Deus não seja menos
do que Hans Christian Andersen
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
Primeira Conjugação
O dia em que tudo eu puder contar
Vai ser muito-muito diferente
Do dia em que eu puder contar tudo
Sim, a ordem dos fatores
Alteraria o meu relato
Poder desabafar – e que a rima acabe em ar
É muito-muito mais atraente
Do que querer se derramar em verso mudo
Sim, a ordem do relato
Alteraria os meus fatores
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Legalize
Eu sei que é pura vaidade da lua,
Poderosa rainha do escuro que me atiça.
Mas seu retrato glorioso no espelho do lago
É o que mais me dispara os sentidos
– ultimamente
E me afoga a vista, e me cega as fronteiras:
Mas que diabos foi fazer o lago lá no alto do céu?
Caio de bunda no úmido do meu paraíso.
Ajeito o reflexo qual pintura de Narciso
E rio, rio, rio... rio do mar de nuvens que avisto
– nitidamente
Sim, vivo sob o feitiço da estrela mais alva,
E rio, rio, rio... até que toco em sua cratera
Quando alço voo na vertigem do tapete mágico
Que teimo em manter aos pés da cama.
Mas que diabos, também não é só isso:
Cultivo tragadas que me acendem noites de prata
– naturalmente
Pamonha, pamonha, pamonha,
Pamonha de Piracicaba!
Ué, quem é esse, vendendo curau,
Montado num dragão dentro da lua?
E rio, rio, rio...
Eu sei que é pura vaidade,
Mas esse clarão no teto do quarto,
Que diabos, me comove até que amanhece
– subitamente
Assinar:
Comentários (Atom)