Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres



segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Velório



No dia em que ela morreu,
Interminável dia,
Abominável dia,
Primeiro eu engasguei salgado,
Depois São Brás me bateu nas costas
E me salvou do constrangimento.
Foi então que abençoei a flatulência,
O meu santo ciclo fedorento,
Pois algum torpor que fosse
Precisava abafar das coroas bentas
Aquele clamor de flores fétidas.

E ainda que rainha, e que reinasse,
No dia em que ela morreu,
Impraticável dia,
Insuportável dia,
Primeiro eu engasguei salgado,
Depois quedei embarazado,
Dispensei regras e rezas,
Discursos e cortejos,
E fui pra casa dilatado
Fértil e flácido,
Grávido de tantos peidos.


E me pari de novo esta segunda vida,
Enquanto meus irmãos secos
Baixavam à terra seca
Todas as coroas secas

E a rainha-mãe.



segunda-feira, 19 de agosto de 2013

As coisas que eu te peço


Pisa em mim mais calmo,
que teu passo firme
já me basta
Tira logo o salto alto,
que este piso leve
não comporta

Salta e voa cada passo,
que no chão tem pedra
e muita casca
Finca logo tua estaca,
que agora aceito
ser comparsa

Arranca dali aquela placa,
que encontrei o rumo
e até perdi a bússola
Pula logo a minha vida,
que eu já sofro tanto
e ninguém mais me nota

Corre, dribla e faz a finta,
que este jogo sujo
nunca empata
Adestra logo o teu macaco,
que a plateia urra
por ribalta

Vê se arrasta aquela nuvem,
que eu prefiro o céu
sem obstáculo
Revela logo a tua fonte,
que eu escrevo um livro
e um espetáculo

Suplanta o meu delírio,
que eu te pago a conta
e te libero a porta
Contempla logo o teu desejo,
que eu sublimo o meu
enquanto isso





segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Inimigos


Eu sou o homem que não gosta mais de mim.
Durante muito tempo procurei por ele,
Sem supor sua quimera e o que ele era.
Por que me boicotava? Será que me matava?

Outro dia ele se traiu – de tanto que me olhou.
Certo que ele conferiu, batata que ele me secou.
Então tirei a limpo, mas que mancha de vermelho!
Foi ele que se feriu quando eu quebrei o espelho.

Agora armei um escudo e que venha o meu pior,
Já sei prever esse mal, já sei a fera de cor.
Mas fico com a impressão de uma grande luta sem fim,
Pois ele é que sou eu que não gosto mais de mim.











segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Colesterol


Nem precisa tocar Vivaldi
Nem tente me oferecer flores
Já sei de mim o meu reclame:
Sempre cabe mais um.

Uso no peito um modelo de coração
Que é GG, extra largo.
Só pode ser essa a explicação
Para eu suar todo melado

E acumular tanto guardado
Comemorar cada pecado
Cada quilômetro rodado
E ofegar refestelado

Cada vez mais apaixonado...

Eu bem que podia criar entrave
perder a chave
descer da nave

Eu até que devia começar uma campanha
evitar nova façanha
anular cada artimanha

E quem sabe o primeiro passo
Fosse engolir o papel almaço
Deste meu poema-desabafo

Mas doutor cardiologista,
Estimado nutricionista,
Meu abnegado analista:
Como emagrecer no coração
E desocupar o lotação,
Se essa necessidade de rima
É minha fonte de vitamina?

Amo, amo, amo e proclamo:
Sou só um pobre poeta amador
Não me internem, por favor.

Antes morte súbita
Que eternidade frígida.

Antes toda a gordura do amor
Que a margarina no refrigerador.