Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres
segunda-feira, 29 de julho de 2013
Ruminante
Tem dia em que acordo pra valer,
em que desperto pra viver.
Tem dia, não é todo dia.
Porque viver não pode ser assim
um fluxo ininterrupto.
Viver nem é fluxo.
No meu metabolismo,
viver é refluxo.
Primeiro um tempo morto,
uma pausa, um repouso.
Um pasto e um repasto.
Depois a vida mastigada
volta pra dentro da boca
e só aí eu me cuspo
e penso que me basto,
no dia em que acordo pra valer,
em que desperto pra viver.
Hoje, não.
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Espiritismo
Fiquei horas na frente de um papel
Esperando Emanuel
Resolvi praticar caligrafia
Enquanto o livro não descia
Veio um anjo e soprou no meu ouvido:
“Bela letra, meu querido.
Chega de escrever,
Agora já pode morrer.”
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Trololó
O que hoje eu rejeito
é a verborragia
confessional
derramada,
a vertigem tola
da primeira pessoa
do singular.
Deixar para sempre
um desabafo epistolar
ególatra?
Não.
E que blá-blá-blá?
E que trololó?
Comigo não, violão.
Não vem, não, caldeirão:
Põe tampa.
Revirem gavetas
e rasguem
qualquer rascunho
de carta
rabiscos
vômitos
sem rigor
nem academia.
Acho mesmo isto:
a morte que me livre
desse jorro pretensioso
de versos desconexos
de orações subordinadas.
Que venha logo a asfixia
e me liberte:
Não quero mais
o frêmito clássico
das proparoxítonas.
Quero o nada mais inculto,
a hemorragia mais veloz
– e a cegueira de um papel
em branco.
segunda-feira, 8 de julho de 2013
Azul
De azul eu gosto
Se tem azul, mergulho
É a cor que mais defino
Derroto o tempo se o céu for de Florence
Eu no balão, tendo as nuvens ao alcance
Domino as águas do mar em Positano
E nada vence as telas de um Ticiano
Se tem azul, desvelo
Não sei de verde nem de vermelho
Talvez o grito de um amarelo
Cores, desde que sejam fortes
Tintas, desde que se carreguem
Tons, desde que cheguem antes
Sei o que é isso, esse exagero:
Aprecio estouro e saturação
Pois meu arco-íris é aleijão
E não me venham com mais chiste
Não me zombem se for doença
Faço poesia como quem resiste
A um daltonismo de nascença
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Este seu colete
Couro bom que é esse
Couro seu de Lampião
Intransponível escudo
Impermeável textura
Couro de fibra por fibra
Sem fibra
Couro cara de paisagem,
Couro cara de pau,
Que devolve ao outro
O que também é seu, não só dele.
Como se não fosse seu, só dele.
Couro bom esse seu,
Que culpabiliza o outro,
Responsabiliza o outro,
Desestabiliza.
Couro que tira o corpo fora,
Tira o couro fora
Do outro
Couro forte de tão covarde,
Cofre forte de couro pusilânime,
Tão forte, tão fraco,
Força que é fraca,
Pois que rebate,
Isenta-se,
Couro que medra,
Couro de merda.
Couro bom esse seu,
Empuxo de física,
À prova de dor,
Que a dor é só do outro,
O amor é só do outro,
A loucura do outro
A cabeça do outro
Bobagem do outro.
Couro bom esse seu
Que nada nunca fez,
Fosco nem reluziu
Atado nem seduziu,
Nada nunca prometeu,
Couro de águia
Com sede de fígado,
Couro de Sísifo,
De pedra sobre pedra,
A mesma mesma pedra,
O mesmo mesmo peso
De pedra
Que quem carrega é o outro,
Quem embala é o outro,
O outro alimenta e aninha,
O outro que tudo confunde,
Que troca os sinais,
O outro sozinho,
O outro, não o do couro,
O outro
Sozinho.
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