Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres
segunda-feira, 24 de junho de 2013
Olha só pro mundo
Olha só pro mundo
Veja se você gosta
Acordar e não abrir janela é afago na morte
Eu preciso que chova nos meus livros
Senão me seco
Olha só pro mundo
Veja se você se enxerga
Minha vida mofa toalhas azulejos panelas
É preciso cultivar essas evidências
Senão desisto
Olha só pro mundo
Veja se você se encontra
Minha rota não se faz com direção
Só preciso de uma nuvem e um borrão
Senão me apago
Olha só pro mundo
Veja se você se ajeita
Compro flores para mim por estratégia
Que eu preciso da verdade de uma pétala
Senão desboto
Olha só pro mundo
Veja se você se apressa
A única certeza não é mera frase feita
Eu preciso de trambiques e rompantes
Senão caduco
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Último boletim
A protuberância incômoda
De meu baço bagaço
Compromete a nudez lucidez
De meu autoconhecimento
O fígado segue apodrecido
E regado por alto teor de tristeza
Enquanto a qualidade úmida
De minha autopiedade crônica
Encharca papagaios e artérias
E me debruço feito moça feia
Nos parapeitos retorcidos
De uma severa autocrítica
Depois amparo minha diverticulite
No despropósito deste terraço de hospital
Com todas as vertigens antibióticas
De meu galopante autoengano.
Por isso, senhoras e senhores,
No flashes, no questions.
segunda-feira, 10 de junho de 2013
O poder das palavras
As palavras pontificam dilemas
tão obstinadamente
que só sossegam
quando trituram cálcios
que só descansam
quando mastigam eixos
que só arrefecem
quando demovem cristos
As palavras arregimentam verdades
tão vertiginosamente
que só acreditam
quando margeiam cancros
que só recrudescem
quando zonzeiam pontes
que só respiram
quando regurgitam vírgulas
As palavras bailam hipóteses
tão descompassadamente
que só debutam
quando sangram serifas
que só emagrecem
quando engolem palanques
que só exultam
quando vislumbram sofismas
segunda-feira, 3 de junho de 2013
Teatro infantil
Sobe no palco, menino.
Desgrude dessa poltrona.
Que conforto qual o quê!
E, ademais, menino,
Será que não vê
Que o tule da bailarina
Arrebita por você?
Entre na trama, menino.
Desmanche essa cortina.
Que engomado está você!
E, ademais, menino,
Será que não vê
Que o sorriso da boneca
Não é de matelassê?
Cresce sem pressa, menino.
Bagunce todo o cenário.
Quanto sonho pra mexer!
E, ademais, menino,
Será que não vê
Que o encanto da princesa
Já enfeitiça o seu querer?
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