Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres
segunda-feira, 27 de maio de 2013
Autodescoberta
Aos cinquenta e dois anos, três meses e 29 dias
cronológicos,
às duas horas, cinquenta e oito minutos e 13 segundos
analógicos,
depois de caixas de fluoxetina e doses de maracujina
ansiolíticos,
desvendei-me, enfim, na sequência de meus algoritmos
genéticos:
sou um cubo mágico desbotado de tantos enganos
daltônicos,
a ata da soma de todos os vocábulos
polissílabos,
o epílogo perfeito para cada enredo de amores
platônicos.
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Dia de ganhar presente
Hoje eu presenteei minha solidão
Dei a ela mimos de apaixonado
E a concretude viscosa das secreções
Todos os meus pingos em lindos potes decorados
Hoje eu presenteei minha solidão
Dei a ela o desvario das pisadas largas
Num passeio súbito pelo conforto dos moletons
Todas as minhas dores num ritmo aeróbico de malhação
Hoje eu presenteei minha solidão
Dei a ela um espetáculo de teatro
Um lugar na pista, um camarote vip
Todos os meus silêncios na estupidez das caixas de som
Hoje eu presenteei minha solidão
Dei a ela bordões da xepa, sirenes do rush
Uma remarcação de preços, a bolsa e o pregão
Todas as minhas preces no funk podre da viração
Hoje eu presenteei minha solidão
Cansado de me mastigar em comiseração
Doente por me remediar sem solução
Zonzo de me embalar em rede de proteção
Depois, sozinho, voltei ao ninho,
ao copo, ao livro, ao edredon
Preenchido até a boca pela missão
Benemérito como beata de procissão
Pois hoje eu presenteei minha solidão
Amanhã, não.
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Rei do Vexame
Para que serve um ridículo rompante
Senão para provar que a vida segue adiante?
Pode o coração bombar o quanto for
O que nos renova é o descompasso do amor.
Encho taças com cada gota do meu destempero
Sei como vale esperar por fevereiro.
Vocifero, esbravejo, esculacho o protocolo
Só me afirmo, quanto mais me descontrolo.
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Drag Queen
Os saltos da viril vizinha do andar de cima
Oprimem o meu eu mais letárgico
E sempre na mesma boca da madrugada.
No começo, pensei que ela voltava do ofício,
Pobre de mim, que velho fiquei.
Quando ela esmaga meu sono, invasiva e pontual,
Com aquela pisada de balangar meu lustre,
Não é volta, nada, pois que ainda é cedo,
Cedo, cedo, cedo, cedo...
Pobre de mim, em que hit parei?
Quando ela crava o escarpim no meu pé-direito,
É a hora em que a lépida monta a saída triunfal
Rumo aos decibéis remasterizados
Dessa felicidade fácil, que eu, moço mofado,
Pobre de mim, nunca mais terei.
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