Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Fuga
- Vem jogar, meu!
Deixa de ser molenga!
Vai ficar atirado aí nesse sofá?
Até que hora? Vãobora!
E que livro é esse agora?
É um dos meus irmãos
Tentando inutilmente
me incluir no time
Sei que é golpe:
Me querem só pra resgatar
A bola que varou o muro
Da vizinha
E parou no meio do quintal
Da megera
Viro pro lado
Dou de ombros
Retomo o parágrafo
Prefiro continuar
Tramando minha fuga
Com a tenaz ajuda
Do Conde de Monte Cristo
segunda-feira, 22 de abril de 2013
Pensão Esperança
Eis o equívoco do amador:
seu amor ilimitado.
Como um portal escancarado
com tinta fresca na tabuleta:
"Vem que cabe,
vem que há vaga,
Entra e senta,
pensão completa"
Amo tanto
e é sem trinco
nem cadeado:
coração arregaçado
Mas dei pra amar errado
E por excesso de dor
na ala esquerda do peito
(machucada carência!)
E absoluta necrose
da tubulação lacrimal,
a república do amor perfeito
quer decretar: - Falência!
Mas não sou de jogar toalha:
lustro a prataria
e refaço a placa
da minha hospedaria
O nome da licença,
mais que definitivo,
agora é estratégico:
Pensão Esperança.
segunda-feira, 15 de abril de 2013
Testemunha
Eu vi uma cena tão serena
Acordei de mim e tive pena
Meu Deus, era uma vista tão singela
Pra que tanto tempo na janela?
Virou um momento tão marcante
Como susto que atiça rocinante
Era a hora e a vez da comunhão
Se duvida que vá lamber sabão
Depois pareceu ser tão ardente
Como pode haver lenha suficiente?
Tão intensa e assim tão repentina
A cena afrontou toga e batina
Agora cá estou: deliro, invento e suponho,
Em cada lua, enfeito sonho por sonho,
E nada suplanta a cena que não tenho.
Dói em mim a ternura que jorrava,
Era tanto sentimento, e transbordava,
Mas não era eu o amor que te abraçava.
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Oração
Mesmo sem asas ao vento,
Abre meus olhos, oh bendita,
E concede-me um momento
de anunciação às avessas:
– Não haverá milagre!
Permite de uma vez por todas
Que eu compreenda este vazio,
Este meu solitário mistério.
E esgota meu prazo:
Não quero mais ter tempo.
Quebra a ponta dos meus lápis
Seca meus órgãos sem mais demora
Faze isso por mim, oh bendita,
Que eu bem que já sei:
meu anjo não vem.
Amém.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Apático
Não reconheço mais a ternura de uma renda
Não salivo mais com a possibilidade de cocada
Não me venha mais com a textura da neve
Não me cega mais a eloquência do branco
Amontoo palavras como quem perde a pauta
Desembrulho signos por desapego aos parágrafos
Vomito mantras para anular os ditados
Apalpo a língua por desespero de causa
Quem me dera uma pulsão que fosse
Quem me dera um empurrão com força
Quem me dera o coração de volta
E a vontade, e a vontade, e a vontade
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