Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres



segunda-feira, 25 de março de 2013

Pileque do Oriente


Madrugada de saquê dá nisso:
Se tento escrever, garrancho infame,
Rabisco, rasuro, escondo no tatame.
Depois busco outra folha em branco
Dobro, redobro, amasso e pronto:
Mais um fracasso em forma de origami.


Atulhado por essa resma insone,
Meu quarto de papel arroz
– Que embebo de saudades
E imprimo de conflitos –
Já vale uma floresta inteira

De eucaliptos






segunda-feira, 18 de março de 2013

Bordado


Sobram linhas retas
No avesso colorido deste meu bordado
Que acaricia um rosto por noite
Com seu relevo puído de quase violetas
No pano manchado de minha fronha de enxoval

Faltam linhas curvas
No trajeto óbvio desta minha palma
Que alicia um corpo por dia
Com a textura áspera de uma letra morta
Na euforia inútil de uma cama de casal

Quem me dera os garranchos atrevidos e livres
Pra salvar da pasmaceira os meus poemas frouxos
Na certeza doída de que nem relevos nem texturas,
Nem curvas nem retas, nem rimas nem métricas:
seu poeta, pobre de mim, nunca serei eu


segunda-feira, 11 de março de 2013

Isso eu sei


Não basta este meu querer inflado,
Esta minha infecção febril.
Poesia não se faz em um dia.

Quem eu estou pensando que sou,
Empilhando sílabas tônicas,
Desprezando o rigor das métricas?

Este meu amor imenso pelas palavras
Só se fortalece quanto mais se esconde.
Porque tudo o que se revela enfraquece.
E não é só com palavras que isso acontece.

Dentro de mim, este meu amor imenso
Também só é porque você não o sabe.
Tudo o que de mim se traduz arrefece.
Isso eu sei - e você nem queira saber.





segunda-feira, 4 de março de 2013

Para o filho


Devagar, meu amor, devagar
Vida no freio, sorte no breque
Não tem hora que escape
Não há pressa que mereça

Tudo no tempo é cimento
Todo vazio é concreto
Cada segundo pula uma corda
E muda a estação de todo jeito

Devagar, meu amor, devagar
Que seu futuro é edifício alto
Degrau por degrau, lance por lance
E o elevador que nem funciona