Raios afundam na terra
Vidraças pranteiam a estação
Minha família e eu
Afogados dentro de nós.
– Passa pra dentro todo mundo!
Meninas com suas hidrocores
No sulfite sem pauta desenham corações.
Meninos lustrando celulóides
Na fórmica azul deslizam seus botões.
– Hoje não vai ter janta?, protesta Vó Clarice.
– Pro gol!, avisa o filho mais velho.
– Ai, minha Santa Maria!, a mãe pro trovão.
– Bonança com sete letras, enuncia o pai.
– Me empresta a tacadeira, chora o caçula.
– Só mais cinco minutos de jogo, avisa a mãe.
E o pai: – Sossego com três letras...
E outro trovão: – Ai, protege, Nossa Senhora!
E a avó: – Não vai ter...?
– Sabe de carro com agá?, pergunta a irmã.
– Sei: pra mim só falta fruta!, ameaça a outra.
– Stop é chato: buraco?, convida o tio solteirão.
Ignóbil, irascível, cognitivo:
Sou eu, enforcando três vezes o primo repetente.
Ao que protesta o agregado: – Assim não brinco mais!
E a mãe: – Olha a briga, forca é instrutivo!
E o pai: – É só coisa de moleque, com cinco letras...
E a avó: – ...janta?
Raios afundam na terra
Vidraças pranteiam a estação
Minha família e eu
afogados dentro de nós.
Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Menino Eu
Eu nasci menino
Que pensa
Com uma lista infinita
De palavras
Feias e belas
Novas e velhas
Na cabeça
De menino
Que pensa
Lista de línguas mortas
Lista de sílabas tônicas
Lista de números primos
Lista de inúmeras primas
Lista de rimas mofadas
Lista de dores quebradas
Lista de verdades fatiadas
Lista de tudo
Sem pressa
Sem método
Quisera fosse
Sem ninguém
Por perto
Mas na minha casa
Alguém sempre passava
E quando alguém passava
De coisas me chamava
Coisas bem difíceis
Coisas bem datadas
Coisas bem estranhas:
- Olha o menino compenetrado!
- Eita menino introspectivo!
- Mas que menino intelectual!
- Que porra de menino absorto!
(Essa era minha vó
Desbocada vó desdentada)
Na minha casa
Onde alguém sempre passava
("Quantos mais
Vão passar hoje?",
eu sempre pensava)
Um amigo da família
Passou e exclamou:
"- Nooooosa!
Esta criança anda tão
Sorumbática!"
Eu não reclamava
Mas ia pesquisar
E fui aprender
O que é que sorumbava
"Eu não sou triste
Adultos é que são",
cheguei à conclusão.
"Criança quieta
Não é criança infeliz.
Pode ser sinal
De que uma porção
De mim
Esteja querendo
Crescer
Um fragmento
De mim
Pode ser
Mas é só"
Eu nasci menino de listas
E por isso
Pensava, pensava, pensava...
E não falava
Até que passava
Mais alguém
Que me prensava:
- Macambúzio!
- Taciturno!
- Cismador!
- Meditabundo!
E vinha minha vó
Desbocada vó desdentada:
"- Aí, garotão,
Quieto assim
Só pode estar pensando
Em namorada..."
Namorada?!
Pensando bem
Mundo, mundo, vasto mundo,
Melhor ouvir isso
Do que meditabundo
Naquela casa
Casa invadida
Casa tomada
Hiperlotada
Cheia de gente
Que passava
E não me largava
Naquela casa
O melhor era nunca
Perder de vista
Na prateleira manchada
O dicionário mofado
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Noves fora
Aritmética esquisita
Que subtrai amídalas
E multiplica as vozes
Que soma as dores
E alonga estimativas
Que socializa a raiva
E aprisiona a brisa
Que coleciona cancros
E distribui divãs
Que triplica as ânsias
E armazena vômitos,
Que aumenta as lâminas
E nem apara arestas.
Aritmética esquisita,
Como queres demonstrar?
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Com licença
Com licença, eu quero passar
Pro outro lado do espelho
Com licença, eu vou à luta
Contra piolho no pentelho
Com licença, tenho de seguir
A rota de um beija-flor
Com licença, tenho de fugir
Da fé no meu salvador
Com licença, eu me retiro
De cena e de cima da morta
Com licença, é meia-noite,
Traz minha abóbora da horta
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