Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres



segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Sale



Hoje,
trinta e um,
fechar pra balanço
na cadeira do vovô.
Amanhã,
primeiro do ano,
mais um verniz
na palha gasta
da mesma cadeira
e um rubro xis
na minha remarcação.

De resto,
pechincho um sol,
que me liquida,
enquanto escorro barato
de mão em mão.

Mas saldo que é bom
só na próxima estação.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Pão e Drops


 

Na cantina da escola era assim:

 – Seu Antonio, me dá meio lanche!

E se o pai desse moeda extra:

 – Seu Antonio, me dá meio lanche e uma fita!

 

Lanche era embrulhinho de mortadela

Fita era tanta bala enfileirada...

E Seu Antonio era isso pra mim:

Pão e drops na hora do recreio.

 

Depois vinha Dona Bia e a gramática,

Aí era lembrar do pão e arrotar o recheio

E fazer outro tipo de fita

Pra fugir da análise sintática.

 

Pra que tanta palavra enfileirada feito drops?

Pra que frase assim tão recheada como pão?
 
 
 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Doa@dor



Tuitei
Postei
Bloguei
Anunciei
E paguei:
“Doo córneas.
Hoje mesmo.
Hashtag doa@dor.”

Afinal,
Por que lua,
Pra que luz,
Se meus olhos
Não têm mais
Permissão
Pra demorar
Nos seus?



segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Cacto


Ando seco seco seco seco
Algo em mim recusa mar e rio
Nem transpiro nem me evaporo
Enxugo involuntariamente
Cada forminha de gelo
Que teima em colorir de plásticos
Este meu novo mundo frost free
Penso que amadurecer seja isso
Reter os líquidos dentro de si
Compreender como sinônimo de conformar-se
Isso
Um ser assim conformado
Resignado árido esturricado
Como eu
É um ser que se fecha e resseca
Que não mais aproveita a água do corpo
Porque entendeu à força e enfim
Que certas coisas são como são
Que certas dores chovem pra nada
Que há amores que nunca serão
Melhor murchar com placidez
E aprender que a vida
Sendo vida
Chega um dia ao estágio de...
Cacto



segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Indisponível


Já tem osso virando farelo
Tinta escorrendo da página
Borrão rasurando a alma
Que o corpo é festa da ruína
Nem mais sombra de dúvida
Nem mais terra à vista
Nem farol nem sol nem sinal
Viga sem força sustentável
Vaga sem conforto reclinável
Vida sem receita palatável
E tudo cede, essa falta que me corrói
É muita sede, esse talho que vaza e dói
– e pensar que tudo isso começou
(meu vagão descarrilou,
meu batente apodreceu,
minha ponte despencou)
no dia em que a saudade impiedosa se acercou
– e pensar que tudo isso começou
(minha canção desafinou,
minha novela embarrigou,
meu roteiro empastelou)
no dia em que você,indisponível, se afastou


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Mal-me-quero


No vai da valsa
Desta minha vidinha
De estações tropicais
Mal e porcamente
Delimitadas,
Semeei canteiros
Feito um tolo,
Mesmo quando
Primavera
Quem dera...
Quimera.

E assim como hera,
Escandente hera,
Subiam-me viços,
Braçadas, ternuras,
E com meu dedo de Tistu
Eu regava o mundo
De verdes e bondades,
Carícias e botânicas,
Uma alegria pueril,
O bem não importa a quem.

Mas agora prevejo:
Meus anos caducos
Serão penosos,
Os meus anos caducos...
Secos e estéreis,
Os meus anos caducos...
Pois detectei enfim
E tarde demais
A praga essencial,
O lapso fatal.

Fosse chuva
- De prata -
Ou fosse sol,
Copo de leite
Ou girassol,
Eu me esquecia
Todo dia
De ir gostando
- Um pouco
De cada vez -
Da figura em mim,
A florada intrínseca,
A pétala fundamental,
Minha alma-minha palma,
O meu eu-jardineiro
Que não reguei.

E agora
E na hora
De nossa
Solidão final,
Amém,
Não haverá saída
Nem margarida
Nem bendito fruto
Nem tarja preta
Que me adube o árido,
Que me sossegue o facho,
Que me acalme os nervos,
Que me aplaque a dor
De ser eu
Minha única
E insatisfatória
Companhia.



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Madrugada Subjuntiva


E se eu não amanhecesse?
Avivasse labaredas no meu ninho de dejetos e mormaços
E deixasse que um lento vapor me cozinhasse?
E se na chaleira corroída do meu banho-maria,
Eu largasse sua mão e me afogasse?
E se eu sorvesse dessa nuvem o que de etéreo houvesse
e voasse, voasse, até que algum Ícaro me despencasse?

E se eu não mais respirasse?
Rompesse cada artéria até meu mar vermelho vazar-se?
Lençol atado no pescoço até que o lustre despencasse?
Um banquete pútrido para que as tripas me delgassem?
Uma rainha louca que me cortasse e embaralhasse?
E se, em vez disso, eu só não mais sonhasse
– já não seria um fim que me bastasse?






segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Poema de morrer


Levanto um circo pra morrer na lona
Escalpelo um frango pra morrer de pena
Pra morrer de véspera, adianto uma novena.

Primeiro viro zen pra depois morrer de ódio
Ganho uma eleição pra morrer de puro tédio
Pra morrer recuperado, saboto o meu remédio.

Toco tuba no coreto pra depois morrer discreto
Viro a fera do bordel, pra acabar no come-quieto
Pra morrer desenganado, me espatifo no concreto.

Compro terra no Xingu pra morrer no Himalaia
Evaporo os sete mares pra poder morrer na praia
Pra morrer canonizado, barbarizo na gandaia.

No bucho, manjar dos deuses – e assim morro de azia
Na pele, banho de lua - e, por fim, morro de dia
Pra morrer durante a noite, holofote na coxia.

Evito o teste da farinha, mas morro em cima daquilo
Na trilha, tango argentino – de mortalha, um espartilho.
Pra morrer cedo e tranquilo, incendeio o meu asilo.

Compro gado atrás de gado só pra morrer mamado
Renovo meu enxoval pra poder morrer pelado
Pra morrer na sua cama, sonho sempre acordado.


segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Língua viva


Desde que rebobinei
Pela primeira vez
Meu futuro de palavras mortas,
Aperto e reaperto teclas,
Insistindo no replay,
Pois, custo a crer,
Nem amor restará
Na crista da onda.



segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Plim-plim


No meu horário nobre,
sempre cabe mais um.
E o amor, despreparado,
feito desodorante barato,
absorve qualquer bordão.
Slogan, jingle, merchandising
viram bomba atômica
nos meus ventrículos
agora bem irrigados.

Mas e o test drive?
E a placa bacteriana?
E o escudo invisível?
Cadê
o prometido alívio imediato
para terríveis dores de cabeça,
os males de fígado,
os desconfortos estomacais?

Incomodado fico eu.
Eu e meu inchado coração
Buscando audiência,
Colecionando reclame.
A primeira dor digital HD
a gente nunca esquece.
Agora dança, neném,
aguenta o tranco,
segura no texto,
chupa que é doce.







segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Por pouco


Você apareceu na fresta
Justo quando descuidei do olhar
E só pude reter o seu relance
Visão que mantenho até hoje
Feito epifania ou hit top ten
Na memória picotada
Do meu papel no mundo
No cérebro congestionado
Da minha falta de sorte
Na lista desperdiçada
Dos meus amores possíveis

Pena mesmo desta vez foi por pouco
Puta medo nunca mais ver seu corpo





segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Jeito de ser (2)


Cultuo as grifes, mas arranco os rótulos
Tatuo os braços pra mimar os músculos

Arregaço as mangas pra chupar caroço
Viro as páginas, mas que livro grosso...

Aborto um rei pra ninar uma placenta
Queimo meu filme e morro em câmera lenta

Beijo bocas raivosas pela paz da anestesia
Chacoalho arbustos pra ser eu a ventania

Rolo na esteira, adio o serviço
Suo no rego por dor e capricho

E depois me vem o êxtase:
Atiço a onça e ligo o foda-se.







segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Jeito de ser (1)


Piso no cadarço e tropeço no raciocínio
Primeiro monto a farsa, depois o patrocínio

Se desencapam meus fios, gozo na calça
Se cremam meu samba, renasço na valsa

Picoto a gravata e nem conheço o noivo
Ajeito meu lobo, mas abafo cada uivo

Rabisco o seu mapa e conquisto território
Bocejo no discurso, mas fomento falatório

Fujo do convento pra me trancar no armário
Mutilo documento, passaporte do caralho



segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Enquanto o homem


Pontes reproduzem lampejos
Ruas buzinam ansiedades
Pedras acumulam coragens
Paredes descascam verdades
Bois pacientam destinos
Galinhas relativizam sentidos
Rosas vicejam desculpas
Morangos sedimentam paixões
Fogueiras estalam rompantes
Estátuas prometem revanches
E os dromedários descansam ao sol

Enquanto o homem, ah, o homem corre
– que ele só tem um tempo,
o maldito tempo de sua vida.




segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Vida besta



Venho por meio desta
Caído no fim da festa
Desprezo que me molesta
Reboque de cal na fresta
Exame que nunca atesta
Mentira não me detesta
Esbanja mas não empresta
Recorta sua mão honesta
Franzido me rasga a testa
Cultivo cova funesta
Novo arranjo velha seresta
Silêncio de quem protesta
Refoga um quilo de floresta
Tempera a boia da indigesta
Espanha suspende a sesta
Quem ri da puta modesta
Meu mar de bosta que infesta
Rompante que ainda me resta
Mas que porra de rima é esta?




segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Meu reino encantado


Sempre que morro
deixo miolo de pão como rastro
e até hoje não houve meios
de que um passarinho faminto
me salvasse do faz de conta
e engolisse meu chão de bromato

Então eu volto.

Sempre que volto
engulo paredes de confeitos
mastigo chaminés de marzipã
devoro armários de nutela
até que engordo de novo o dedo
e chamo a bruxa pro serviço sujo:
mastigar minha vida sacarina

Então eu morro.

Figurante 3D sem nome nos créditos,
assim é que faço e refaço a travessia,
pensando que vida é fábula,
achando que morte é sono,
rezando pra que Deus não seja menos
do que Hans Christian Andersen





segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Primeira Conjugação


O dia em que tudo eu puder contar
Vai ser muito-muito diferente
Do dia em que eu puder contar tudo

Sim, a ordem dos fatores
Alteraria o meu relato

Poder desabafar – e que a rima acabe em ar
É muito-muito mais atraente
Do que querer se derramar em verso mudo

Sim, a ordem do relato
Alteraria os meus fatores


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Legalize


Eu sei que é pura vaidade da lua,
Poderosa rainha do escuro que me atiça.
Mas seu retrato glorioso no espelho do lago
É o que mais me dispara os sentidos
– ultimamente

E me afoga a vista, e me cega as fronteiras:
Mas que diabos foi fazer o lago lá no alto do céu?
Caio de bunda no úmido do meu paraíso.
Ajeito o reflexo qual pintura de Narciso
E rio, rio, rio... rio do mar de nuvens que avisto
– nitidamente

Sim, vivo sob o feitiço da estrela mais alva,
E rio, rio, rio... até que toco em sua cratera
Quando alço voo na vertigem do tapete mágico
Que teimo em manter aos pés da cama.
Mas que diabos, também não é só isso:
Cultivo tragadas que me acendem noites de prata
– naturalmente

Pamonha, pamonha, pamonha,
Pamonha de Piracicaba!
Ué, quem é esse, vendendo curau,
Montado num dragão dentro da lua?
E rio, rio, rio...
Eu sei que é pura vaidade,
Mas esse clarão no teto do quarto,
Que diabos, me comove até que amanhece
– subitamente



segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Velório



No dia em que ela morreu,
Interminável dia,
Abominável dia,
Primeiro eu engasguei salgado,
Depois São Brás me bateu nas costas
E me salvou do constrangimento.
Foi então que abençoei a flatulência,
O meu santo ciclo fedorento,
Pois algum torpor que fosse
Precisava abafar das coroas bentas
Aquele clamor de flores fétidas.

E ainda que rainha, e que reinasse,
No dia em que ela morreu,
Impraticável dia,
Insuportável dia,
Primeiro eu engasguei salgado,
Depois quedei embarazado,
Dispensei regras e rezas,
Discursos e cortejos,
E fui pra casa dilatado
Fértil e flácido,
Grávido de tantos peidos.


E me pari de novo esta segunda vida,
Enquanto meus irmãos secos
Baixavam à terra seca
Todas as coroas secas

E a rainha-mãe.



segunda-feira, 19 de agosto de 2013

As coisas que eu te peço


Pisa em mim mais calmo,
que teu passo firme
já me basta
Tira logo o salto alto,
que este piso leve
não comporta

Salta e voa cada passo,
que no chão tem pedra
e muita casca
Finca logo tua estaca,
que agora aceito
ser comparsa

Arranca dali aquela placa,
que encontrei o rumo
e até perdi a bússola
Pula logo a minha vida,
que eu já sofro tanto
e ninguém mais me nota

Corre, dribla e faz a finta,
que este jogo sujo
nunca empata
Adestra logo o teu macaco,
que a plateia urra
por ribalta

Vê se arrasta aquela nuvem,
que eu prefiro o céu
sem obstáculo
Revela logo a tua fonte,
que eu escrevo um livro
e um espetáculo

Suplanta o meu delírio,
que eu te pago a conta
e te libero a porta
Contempla logo o teu desejo,
que eu sublimo o meu
enquanto isso





segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Inimigos


Eu sou o homem que não gosta mais de mim.
Durante muito tempo procurei por ele,
Sem supor sua quimera e o que ele era.
Por que me boicotava? Será que me matava?

Outro dia ele se traiu – de tanto que me olhou.
Certo que ele conferiu, batata que ele me secou.
Então tirei a limpo, mas que mancha de vermelho!
Foi ele que se feriu quando eu quebrei o espelho.

Agora armei um escudo e que venha o meu pior,
Já sei prever esse mal, já sei a fera de cor.
Mas fico com a impressão de uma grande luta sem fim,
Pois ele é que sou eu que não gosto mais de mim.











segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Colesterol


Nem precisa tocar Vivaldi
Nem tente me oferecer flores
Já sei de mim o meu reclame:
Sempre cabe mais um.

Uso no peito um modelo de coração
Que é GG, extra largo.
Só pode ser essa a explicação
Para eu suar todo melado

E acumular tanto guardado
Comemorar cada pecado
Cada quilômetro rodado
E ofegar refestelado

Cada vez mais apaixonado...

Eu bem que podia criar entrave
perder a chave
descer da nave

Eu até que devia começar uma campanha
evitar nova façanha
anular cada artimanha

E quem sabe o primeiro passo
Fosse engolir o papel almaço
Deste meu poema-desabafo

Mas doutor cardiologista,
Estimado nutricionista,
Meu abnegado analista:
Como emagrecer no coração
E desocupar o lotação,
Se essa necessidade de rima
É minha fonte de vitamina?

Amo, amo, amo e proclamo:
Sou só um pobre poeta amador
Não me internem, por favor.

Antes morte súbita
Que eternidade frígida.

Antes toda a gordura do amor
Que a margarina no refrigerador.



segunda-feira, 29 de julho de 2013

Ruminante


Tem dia em que acordo pra valer,
em que desperto pra viver.
Tem dia, não é todo dia.
Porque viver não pode ser assim
um fluxo ininterrupto.
Viver nem é fluxo.
No meu metabolismo,
viver é refluxo.
Primeiro um tempo morto,
uma pausa, um repouso.
Um pasto e um repasto.
Depois a vida mastigada
volta pra dentro da boca
e só aí eu me cuspo
e penso que me basto,
no dia em que acordo pra valer,
em que desperto pra viver.

Hoje, não.



segunda-feira, 22 de julho de 2013

Espiritismo



Fiquei horas na frente de um papel
Esperando Emanuel
Resolvi praticar caligrafia
Enquanto o livro não descia

Veio um anjo e soprou no meu ouvido:
“Bela letra, meu querido.
Chega de escrever,
Agora já pode morrer.”



segunda-feira, 15 de julho de 2013

Trololó


O que hoje eu rejeito
é a verborragia
confessional
derramada,
a vertigem tola
da primeira pessoa
do singular.

Deixar para sempre
um desabafo epistolar
ególatra?
Não.
E que blá-blá-blá?
E que trololó?
Comigo não, violão.
Não vem, não, caldeirão:
Põe tampa.

Revirem gavetas
e rasguem
qualquer rascunho
de carta
rabiscos
vômitos
sem rigor
nem academia.

Acho mesmo isto:
a morte que me livre
desse jorro pretensioso
de versos desconexos
de orações subordinadas.
Que venha logo a asfixia
e me liberte:
Não quero mais
o frêmito clássico
das proparoxítonas.
Quero o nada mais inculto,
a hemorragia mais veloz
– e a cegueira de um papel
em branco.


segunda-feira, 8 de julho de 2013

Azul


De azul eu gosto
Se tem azul, mergulho
É a cor que mais defino
Derroto o tempo se o céu for de Florence
Eu no balão, tendo as nuvens ao alcance
Domino as águas do mar em Positano
E nada vence as telas de um Ticiano
Se tem azul, desvelo
Não sei de verde nem de vermelho
Talvez o grito de um amarelo
Cores, desde que sejam fortes
Tintas, desde que se carreguem
Tons, desde que cheguem antes
Sei o que é isso, esse exagero:
Aprecio estouro e saturação
Pois meu arco-íris é aleijão
E não me venham com mais chiste
Não me zombem se for doença
Faço poesia como quem resiste
A um daltonismo de nascença


segunda-feira, 1 de julho de 2013

Este seu colete


Couro bom que é esse
Couro seu de Lampião
Intransponível escudo
Impermeável textura
Couro de fibra por fibra
Sem fibra
Couro cara de paisagem,
Couro cara de pau,
Que devolve ao outro
O que também é seu, não só dele.
Como se não fosse seu, só dele.

Couro bom esse seu,
Que culpabiliza o outro,
Responsabiliza o outro,
Desestabiliza.
Couro que tira o corpo fora,
Tira o couro fora
Do outro
Couro forte de tão covarde,
Cofre forte de couro pusilânime,
Tão forte, tão fraco,
Força que é fraca,
Pois que rebate,
Isenta-se,
Couro que medra,
Couro de merda.

Couro bom esse seu,
Empuxo de física,
À prova de dor,
Que a dor é só do outro,
O amor é só do outro,
A loucura do outro
A cabeça do outro
Bobagem do outro.

Couro bom esse seu
Que nada nunca fez,
Fosco nem reluziu
Atado nem seduziu,
Nada nunca prometeu,
Couro de águia
Com sede de fígado,
Couro de Sísifo,
De pedra sobre pedra,
A mesma mesma pedra,
O mesmo mesmo peso
De pedra
Que quem carrega é o outro,
Quem embala é o outro,
O outro alimenta e aninha,
O outro que tudo confunde,
Que troca os sinais,
O outro sozinho,
O outro, não o do couro,
O outro
Sozinho.


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Olha só pro mundo


Olha só pro mundo
Veja se você gosta
Acordar e não abrir janela é afago na morte
Eu preciso que chova nos meus livros
Senão me seco

Olha só pro mundo
Veja se você se enxerga
Minha vida mofa toalhas azulejos panelas
É preciso cultivar essas evidências
Senão desisto

Olha só pro mundo
Veja se você se encontra
Minha rota não se faz com direção
Só preciso de uma nuvem e um borrão
Senão me apago

Olha só pro mundo
Veja se você se ajeita
Compro flores para mim por estratégia
Que eu preciso da verdade de uma pétala
Senão desboto

Olha só pro mundo
Veja se você se apressa
A única certeza não é mera frase feita
Eu preciso de trambiques e rompantes
Senão caduco


segunda-feira, 17 de junho de 2013

Último boletim


A protuberância incômoda
De meu baço bagaço
Compromete a nudez lucidez
De meu autoconhecimento
O fígado segue apodrecido
E regado por alto teor de tristeza
Enquanto a qualidade úmida
De minha autopiedade crônica
Encharca papagaios e artérias
E me debruço feito moça feia
Nos parapeitos retorcidos
De uma severa autocrítica
Depois amparo minha diverticulite
No despropósito deste terraço de hospital
Com todas as vertigens antibióticas
De meu galopante autoengano.

Por isso, senhoras e senhores,
No flashes, no questions.




segunda-feira, 10 de junho de 2013

O poder das palavras


As palavras pontificam dilemas
tão obstinadamente
que só sossegam
quando trituram cálcios
que só descansam
quando mastigam eixos
que só arrefecem
quando demovem cristos

As palavras arregimentam verdades
tão vertiginosamente
que só acreditam
quando margeiam cancros
que só recrudescem
quando zonzeiam pontes
que só respiram
quando regurgitam vírgulas


As palavras bailam hipóteses
tão descompassadamente
que só debutam
quando sangram serifas
que só emagrecem
quando engolem palanques
que só exultam
quando vislumbram sofismas



segunda-feira, 3 de junho de 2013

Teatro infantil


Sobe no palco, menino.
Desgrude dessa poltrona.
Que conforto qual o quê!
E, ademais, menino,
Será que não vê
Que o tule da bailarina
Arrebita por você?


Entre na trama, menino.
Desmanche essa cortina.
Que engomado está você!
E, ademais, menino,
Será que não vê
Que o sorriso da boneca
Não é de matelassê?


Cresce sem pressa, menino.
Bagunce todo o cenário.
Quanto sonho pra mexer!
E, ademais, menino,
Será que não vê
Que o encanto da princesa
Já enfeitiça o seu querer?




segunda-feira, 27 de maio de 2013

Autodescoberta


Aos cinquenta e dois anos, três meses e 29 dias
cronológicos,
às duas horas, cinquenta e oito minutos e 13 segundos
analógicos,
depois de caixas de fluoxetina e doses de maracujina
ansiolíticos,
desvendei-me, enfim, na sequência de meus algoritmos
genéticos:
sou um cubo mágico desbotado de tantos enganos
daltônicos,
a ata da soma de todos os vocábulos
polissílabos,
o epílogo perfeito para cada enredo de amores
platônicos.




segunda-feira, 20 de maio de 2013

Dia de ganhar presente


Hoje eu presenteei minha solidão
Dei a ela mimos de apaixonado
E a concretude viscosa das secreções
Todos os meus pingos em lindos potes decorados

Hoje eu presenteei minha solidão
Dei a ela o desvario das pisadas largas
Num passeio súbito pelo conforto dos moletons
Todas as minhas dores num ritmo aeróbico de malhação

Hoje eu presenteei minha solidão
Dei a ela um espetáculo de teatro
Um lugar na pista, um camarote vip
Todos os meus silêncios na estupidez das caixas de som

Hoje eu presenteei minha solidão
Dei a ela bordões da xepa, sirenes do rush
Uma remarcação de preços, a bolsa e o pregão
Todas as minhas preces no funk podre da viração

Hoje eu presenteei minha solidão
Cansado de me mastigar em comiseração
Doente por me remediar sem solução
Zonzo de me embalar em rede de proteção

Depois, sozinho, voltei ao ninho,
ao copo, ao livro, ao edredon
Preenchido até a boca pela missão
Benemérito como beata de procissão

Pois hoje eu presenteei minha solidão
Amanhã, não.





segunda-feira, 13 de maio de 2013

Rei do Vexame


Para que serve um ridículo rompante
Senão para provar que a vida segue adiante?

Pode o coração bombar o quanto for
O que nos renova é o descompasso do amor.

Encho taças com cada gota do meu destempero
Sei como vale esperar por fevereiro.

Vocifero, esbravejo, esculacho o protocolo
Só me afirmo, quanto mais me descontrolo.




segunda-feira, 6 de maio de 2013

Drag Queen


Os saltos da viril vizinha do andar de cima
Oprimem o meu eu mais letárgico
E sempre na mesma boca da madrugada.
No começo, pensei que ela voltava do ofício,
Pobre de mim, que velho fiquei.

Quando ela esmaga meu sono, invasiva e pontual,
Com aquela pisada de balangar meu lustre,
Não é volta, nada, pois que ainda é cedo,
Cedo, cedo, cedo, cedo...
Pobre de mim, em que hit parei?

Quando ela crava o escarpim no meu pé-direito,
É a hora em que a lépida monta a saída triunfal
Rumo aos decibéis remasterizados
Dessa felicidade fácil, que eu, moço mofado,
Pobre de mim, nunca mais terei.


segunda-feira, 29 de abril de 2013

Fuga


- Vem jogar, meu!
Deixa de ser molenga!
Vai ficar atirado aí nesse sofá?
Até que hora? Vãobora!
E que livro é esse agora?

É um dos meus irmãos
Tentando inutilmente
me incluir no time

Sei que é golpe:
Me querem só pra resgatar
A bola que varou o muro
Da vizinha
E parou no meio do quintal
Da megera

Viro pro lado
Dou de ombros
Retomo o parágrafo

Prefiro continuar
Tramando minha fuga
Com a tenaz ajuda
Do Conde de Monte Cristo









segunda-feira, 22 de abril de 2013

Pensão Esperança


Eis o equívoco do amador:
seu amor ilimitado.
Como um portal escancarado
com tinta fresca na tabuleta:

"Vem que cabe,
vem que há vaga,
Entra e senta,
pensão completa"

Amo tanto
e é sem trinco
nem cadeado:
coração arregaçado

Mas dei pra amar errado
E por excesso de dor
na ala esquerda do peito
(machucada carência!)

E absoluta necrose
da tubulação lacrimal,
a república do amor perfeito
quer decretar: - Falência!

Mas não sou de jogar toalha:
lustro a prataria
e refaço a placa
da minha hospedaria

O nome da licença,
mais que definitivo,
agora é estratégico:
Pensão Esperança.


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Testemunha


Eu vi uma cena tão serena
Acordei de mim e tive pena

Meu Deus, era uma vista tão singela
Pra que tanto tempo na janela?

Virou um momento tão marcante
Como susto que atiça rocinante

Era a hora e a vez da comunhão
Se duvida que vá lamber sabão

Depois pareceu ser tão ardente
Como pode haver lenha suficiente?

Tão intensa e assim tão repentina
A cena afrontou toga e batina

Agora cá estou: deliro, invento e suponho,
Em cada lua, enfeito sonho por sonho,
E nada suplanta a cena que não tenho.

Dói em mim a ternura que jorrava,
Era tanto sentimento, e transbordava,
Mas não era eu o amor que te abraçava.


segunda-feira, 8 de abril de 2013

Oração


Mesmo sem asas ao vento,
Abre meus olhos, oh bendita,
E concede-me um momento
de anunciação às avessas:
– Não haverá milagre!

Permite de uma vez por todas
Que eu compreenda este vazio,
Este meu solitário mistério.
E esgota meu prazo:
Não quero mais ter tempo.

Quebra a ponta dos meus lápis
Seca meus órgãos sem mais demora
Faze isso por mim, oh bendita,
Que eu bem que já sei:
meu anjo não vem.

Amém.


segunda-feira, 1 de abril de 2013

Apático


Não reconheço mais a ternura de uma renda
Não salivo mais com a possibilidade de cocada
Não me venha mais com a textura da neve
Não me cega mais a eloquência do branco

Amontoo palavras como quem perde a pauta
Desembrulho signos por desapego aos parágrafos
Vomito mantras para anular os ditados
Apalpo a língua por desespero de causa

Quem me dera uma pulsão que fosse
Quem me dera um empurrão com força
Quem me dera o coração de volta
E a vontade, e a vontade, e a vontade





segunda-feira, 25 de março de 2013

Pileque do Oriente


Madrugada de saquê dá nisso:
Se tento escrever, garrancho infame,
Rabisco, rasuro, escondo no tatame.
Depois busco outra folha em branco
Dobro, redobro, amasso e pronto:
Mais um fracasso em forma de origami.


Atulhado por essa resma insone,
Meu quarto de papel arroz
– Que embebo de saudades
E imprimo de conflitos –
Já vale uma floresta inteira

De eucaliptos






segunda-feira, 18 de março de 2013

Bordado


Sobram linhas retas
No avesso colorido deste meu bordado
Que acaricia um rosto por noite
Com seu relevo puído de quase violetas
No pano manchado de minha fronha de enxoval

Faltam linhas curvas
No trajeto óbvio desta minha palma
Que alicia um corpo por dia
Com a textura áspera de uma letra morta
Na euforia inútil de uma cama de casal

Quem me dera os garranchos atrevidos e livres
Pra salvar da pasmaceira os meus poemas frouxos
Na certeza doída de que nem relevos nem texturas,
Nem curvas nem retas, nem rimas nem métricas:
seu poeta, pobre de mim, nunca serei eu


segunda-feira, 11 de março de 2013

Isso eu sei


Não basta este meu querer inflado,
Esta minha infecção febril.
Poesia não se faz em um dia.

Quem eu estou pensando que sou,
Empilhando sílabas tônicas,
Desprezando o rigor das métricas?

Este meu amor imenso pelas palavras
Só se fortalece quanto mais se esconde.
Porque tudo o que se revela enfraquece.
E não é só com palavras que isso acontece.

Dentro de mim, este meu amor imenso
Também só é porque você não o sabe.
Tudo o que de mim se traduz arrefece.
Isso eu sei - e você nem queira saber.





segunda-feira, 4 de março de 2013

Para o filho


Devagar, meu amor, devagar
Vida no freio, sorte no breque
Não tem hora que escape
Não há pressa que mereça

Tudo no tempo é cimento
Todo vazio é concreto
Cada segundo pula uma corda
E muda a estação de todo jeito

Devagar, meu amor, devagar
Que seu futuro é edifício alto
Degrau por degrau, lance por lance
E o elevador que nem funciona





segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Passatempos em dezembro

Raios afundam na terra
Vidraças pranteiam a estação
Minha família e eu
Afogados dentro de nós.
– Passa pra dentro todo mundo!
Meninas com suas hidrocores
No sulfite sem pauta desenham corações.
Meninos lustrando celulóides
Na fórmica azul deslizam seus botões.
– Hoje não vai ter janta?, protesta Vó Clarice.
– Pro gol!, avisa o filho mais velho.
– Ai, minha Santa Maria!, a mãe pro trovão.
– Bonança com sete letras, enuncia o pai.
– Me empresta a tacadeira, chora o caçula.
– Só mais cinco minutos de jogo, avisa a mãe.
E o pai: – Sossego com três letras...
E outro trovão: – Ai, protege, Nossa Senhora!
E a avó: – Não vai ter...?
– Sabe de carro com agá?, pergunta a irmã.
– Sei: pra mim só falta fruta!, ameaça a outra.
– Stop é chato: buraco?, convida o tio solteirão.
Ignóbil, irascível, cognitivo:
Sou eu, enforcando três vezes o primo repetente.
Ao que protesta o agregado: – Assim não brinco mais!
E a mãe: – Olha a briga, forca é instrutivo!
E o pai: – É só coisa de moleque, com cinco letras...
E a avó: – ...janta?
Raios afundam na terra
Vidraças pranteiam a estação
Minha família e eu
afogados dentro de nós.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Menino Eu


Eu nasci menino
Que pensa
Com uma lista infinita
De palavras
Feias e belas
Novas e velhas
Na cabeça
De menino
Que pensa

Lista de línguas mortas
Lista de sílabas tônicas
Lista de números primos
Lista de inúmeras primas
Lista de rimas mofadas
Lista de dores quebradas
Lista de verdades fatiadas

Lista de tudo
Sem pressa
Sem método
Quisera fosse
Sem ninguém
Por perto

Mas na minha casa
Alguém sempre passava
E quando alguém passava
De coisas me chamava
Coisas bem difíceis
Coisas bem datadas
Coisas bem estranhas:

- Olha o menino compenetrado!
- Eita menino introspectivo!
- Mas que menino intelectual!
- Que porra de menino absorto!
(Essa era minha vó
Desbocada vó desdentada)

Na minha casa
Onde alguém sempre passava
("Quantos mais
Vão passar hoje?",
eu sempre pensava)
Um amigo da família
Passou e exclamou:
"- Nooooosa!
Esta criança anda tão
Sorumbática!"

Eu não reclamava
Mas ia pesquisar
E fui aprender
O que é que sorumbava

"Eu não sou triste
Adultos é que são",
cheguei à conclusão.
"Criança quieta
Não é criança infeliz.
Pode ser sinal
De que uma porção
De mim
Esteja querendo
Crescer
Um fragmento
De mim
Pode ser
Mas é só"

Eu nasci menino de listas
E por isso
Pensava, pensava, pensava...
E não falava

Até que passava
Mais alguém
Que me prensava:
- Macambúzio!
- Taciturno!
- Cismador!
- Meditabundo!

E vinha minha vó
Desbocada vó desdentada:
"- Aí, garotão,
Quieto assim
Só pode estar pensando
Em namorada..."

Namorada?!
Pensando bem
Mundo, mundo, vasto mundo,
Melhor ouvir isso
Do que meditabundo

Naquela casa
Casa invadida
Casa tomada
Hiperlotada
Cheia de gente
Que passava
E não me largava
Naquela casa
O melhor era nunca
Perder de vista
Na prateleira manchada
O dicionário mofado

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Noves fora


Aritmética esquisita
Que subtrai amídalas
E multiplica as vozes
Que soma as dores
E alonga estimativas
Que socializa a raiva
E aprisiona a brisa
Que coleciona cancros
E distribui divãs
Que triplica as ânsias
E armazena vômitos,
Que aumenta as lâminas
E nem apara arestas.
Aritmética esquisita,
Como queres demonstrar?


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Com licença


Com licença, eu quero passar
Pro outro lado do espelho
Com licença, eu vou à luta
Contra piolho no pentelho

Com licença, tenho de seguir
A rota de um beija-flor
Com licença, tenho de fugir
Da fé no meu salvador

Com licença, eu me retiro
De cena e de cima da morta
Com licença, é meia-noite,
Traz minha abóbora da horta

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Três troças

1.
Decorei o samba errado
Aceitas a contradança?
Derrubei sangue gelado
Será que mancha?


2.
Quem conta um conto
Aumenta os cacos.
Quem tudo quer
Engole os sapos.

3.
Da laranja quero um gomo
Do pulmão falta um pedaço
Se essa lua fosse minha,
Terezinha, aquele abraço!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Meu grito

Pois quando um zunido
Ocupou as duas vagas laterais
De minha cabeça latejante,
Abri meu portão cheio de dentes
E gritei seu nome composto
De cuspes e consoantes,
Enquanto cerrava, por trás das lentes,
As duas simétricas venezianas,
Molhadas e remelentas,
Desta minha gasta face
Manchada de mágoas e Munchs
E máculas resistentes.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Súplica

Quer que peça mais como?
Quer que implore?
Que ajoelhe imprecações?
Que suplique em gosmas?
Que chore em caldas?
E me dissolva em babas?
Pois faço.
Peça que faço.
Uma fraqueza a mais
Não vai ruir meu forte.
Fraquejo o quanto for
pra enrijecer meu leme
e acarinhar meu prumo,
e assegurar meu norte.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Noite de hotel



1.
Ar com barulho condiciona o sonho,
Sem meia nos pés nem me suponho.
Cacos de taça, gim de frigobar,
Veneno na tomada, asas de picar,
Escuro que ameaça, vulto que perpassa,
Quantos pijamas ainda furo de fumaça?


2.
Pena de ganso é vida adormecida.
Sonho no sonho, certeza distorcida.
Choro na fronha, afago no sofrer.
Cortina forrada, ensaio pra morrer.

3.
A insônia eu embalo, não perturbar.
O desejo eu derramo, favor arrumar.