Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres



segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O de sempre


Meu viver é paradoxal:
Tem, mas acabou.
Quem comanda o meu pedido?
Não que eu vá pagar ao consumir
Nem que eu vá cagar sem despedir
Mas hoje é praxe cantar o garçom
Mas hoje é chique babar no salmon
Boteco muquifo sujinho sem lei
Cenário pra tudo o que não aprontei
Fiado, no fundo, é erro de digitação
Troco uma letra, atesto a condição.
Sorvo e trago à espera do juízo
E regurgito meu último alívio
Até o chão já encarde o que sou
Até o pão adormece de enjoo
Mas na bandeja de bile e de fel
Enxergo um sonho de cana e pastel
Algum trono ainda usurparei
Descarga de bosta!, feliz reinarei.


segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Caguei

Tosquiei meu cordeiro,
Depenei minhas asas,
Desentoquei o meu lobo,
Perfurei meus lençóis,
Queimei fotos de família,
Escarrei nas estátuas,
Incriminei criancinhas,
Vilipendiei as santinhas ,
Arregacei orifícios,
Vazei combustíveis,
Alimentei cascavéis,
Dei tesouras a Dalilas,
Destronei monarquias,
Explodi manjedouras.

E agora estou pronto:
A minha bosta, o meu basta.


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Rapidinha

Ela disse tira
ele disse tira
ela disse calma
ele disse sempre
ela disse até parece

Ele disse já fui
ela disse ah
ele disse mais
ela disse até parece

Ele disse atrás
ela disse nunca
ele disse minha mulher deixa
ela disse:
too much information, baby

Ele disse foi mal
ela disse foi rápido
ele disse nunca acontece
ela disse sempre comigo
ele disse até parece

Ela disse meu marido horas
ele disse ah
ela disse e o dele ó
ele disse até parece
ela disse uma régua
ele disse:
too much information, baby

Ela disse vamos
meu marido vai chegar
– da reunião

Ele disse vamos
minha mulher vai voltar
– do dentista

Ela disse:
ele inventa compromisso
casei com um galinha

Ele disse:
ela inventa dor de dente
casei com uma vaca

Too much information, baby,
repetiram juntos,
já dentro do elevador.

E riram.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Sol e Lua


O sol congelou minha piscina
Na manhã em que acordou com baixa estima
Rasguei a sunga, pus a casa à venda:
Não posso depender do humor do rei


A lua resolveu cair da escada
Na noite em que no alpendre eu me deitei
Nem posso suspeitar que foi má fé:
Ao menos tive queijo no café






segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Irritado

Aparentemente vivo,
Resvalo a rodo
No viscoso produto
De minhas irritações cotidianas

Tento estancar a gosma
E deslizar prudente
Pelo tapete áspero
De meu beco sem saída

Mas me encobre nova onda
Dessa borbulha furibunda
Que me repele os pares
E me impele às úlceras

Aparentemente vivo,
Afrouxo ainda mais os cintos
De minha turbulência acre
E aguardo a queda fatal.