Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres



segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A próxima insônia

Agora é isso
Toda vez isso
Dia e noite isso
Cada sono que aborto
Sangra de manhã uma cachoeira
E eu não venço despejar no esgoto
As gosmas rubras do meu desconsolo
Nem mais evito manchar meus fuxicos
Com os piches noturnos de uma imensa dor
E ainda que empunhe o graveto e atice centelha
Esbarro a alma no velho abajur de cetim estampado
E choro este amor errado
Que teima em arder sem parelha
Minha gastura avança sem ponteiros
Até que olho as horas e avisto mil coelhos
Lépidos carrascos armados e desgovernados
Que me imprimem requintes de escalpelos
É tarde mas teclo sem brio um alô em carne viva
E só o que consigo de ti em nova inútil investida
É me enrolar zonzo torto fraco murcho
– mais sozinho ainda –
Nos trapos gélidos da próxima insônia


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Uma Relação

Tenho alguém na minha vida
Que me diz coisas fodidas
Que eu nasci para escória
Que não sei o que é vitória
Que na boca há jorro pútrido
E no falo um lixo fétido
Que só arrasto uma carcaça
E envergonho qualquer raça.
Que decomponho e esfarelo
Às vezes bile, às vezes gelo
Que contamino o horror supremo
Primeiro engulho, depois veneno

E que me vai triturar miolos
E que me vai cozinhar miúdos
E quer rifar meus dez artelhos
E estilhaçar meus mil espelhos
Cobrir de lâminas orifícios
Vazar meus olhos sub-reptícios
Empelotar o sangue, escoar o sêmen
Até que vermes me acenem.

Mas não me importo, nada temo.
Tenho alguém na minha vida
Que me diz coisas fodidas
E só fraquejo e desabafo
Quando – pena! – tudo cessa,
Tudo fica na promessa.


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Rejeitado

Quando eu volto de você,
De olhos vermelhos,
Deixo água salgada como rastro
E você nem me segue
Com medo de mar...
Quando eu volto de você,
De olhos parados,
Cai um raio e não desmaio,
Boa-noite-cinderela como sequela,
E dói no almoço, e dói na janta,
Comprimido vira mistura.
E cisco o prato, mastigo as cápsulas,
Haja posologia, inútil profilaxia...
Pois eu volto de você
E quem disse que isso tem cura?

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Telefonia

E este telefone que não toca?
Quem inventou:
Este aparelho de tortura?
Este aparato de guerra?
Este aperto de gatilho?
Este apuro de saudade?

Do outro lado da linha,
Sem bateria nem vibracall,
Sei que alguém já dorme,
Sei que alguém já ronca,
Sei que alguém já era.

Deste lado da linha,
Na madrugada calada e fria,
Sem viva-voz
Nem rings
Nem beeps
Nem buzzers
Nem faces
Nem tunes
Nem messages,
Graham-Bell maltrata mais um amor.

Por falta de sinal.



segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Lírica Inútil

Não vou desperdiçar em verso
A palavra mais bonita da língua
Se você nem soneto nem ode

Persigo a retórica, perfeição idiomática,
A palavra mais rojão no céu da boca
Mas você nem canto nem trova

Balada de saliva, festa do sussurro,
A palavra mais formosa lambe e pinga
E você nem rima nem rica