Antes que eu me desande a escrever,
bem sei,
muito há de bom para ler.
E mais do que deitar leitura,
viver se impõe
na forma encompridada
de outro verbo imperativo:
vivenciar.
Mas para que a vida palpável?
Ou a leitura segura?
Se dentro de mim
urge o tempo quente da criação?
O que fazer
se na altura das têmporas
me formigam frases completas,
instando papel pautado
clamando tinta de impressão
rogando alfabetos?
Como segurar, no ventre inchado das ideias,
todas essas orações gestadas em ímpeto?
Como?
Concebidas em frenesi,
sentenças já bem formadas
implorando por jorros de aborto.
Retê-las é reter-me
Impedi-las de vincarem sulcos
no celulose virgem das páginas em branco
é como encruar-me
É como me autoimpor
a secura de um cacto
a aridez a me arder na vista
o vômito ácido hospedado na boca
o sêmen farto a borbulhar inútil.
Não.
Não posso enclausurar minhas palavras
na prisão perpétua da autocrítica.
Não posso ser meu algoz
a me reprimir inclemente.
Pesam-me os anos desperdiçados sem letras
– e isso já não basta?
Sou um velho afoito
por queimar atrasos.
Sou um jovem nascendo
para as possibilidades da prosa.
Que venham depois os detratores
e que me roubem o sono
– mas eu mesmo já não o tinha excluído
de minhas noites inquietas?
Que venham os críticos,
os juízes,
os advogados,
os donos do mundo
com seus decretos
– eu saberei, afinal, distribuir
pesos e medidas.
Quero antes que me afrontem
meus próprios verbos
a temer primeiro
os adjetivos adversários.
Quero os substantivos abstratos
enfeitando minhas ficções de concreto.
E se o medo agora me dói
já é então a dor de crescimento.
Se a coragem me empurra
já é então a certeza de liberdade.
Eis que o discurso flui,
vertendo fagulhas,
raios, lampejos.
Estou pronto.
O que li já me serve e me ampara
O que eu já vivi me instiga e me desafia
Achem o que acharem,
julguem o que for.
A pretensão me domina,
a decisão impera.
Opção já não há.
Eu quero, agora, é escrever.