Aos 51 anos, começo a mostrar meus poemas inéditos, um a cada segunda-feira, na fé de que tenham valor literário e caiam no gosto dos que levam a vida em versos livres
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
O de sempre
Meu viver é paradoxal:
Tem, mas acabou.
Quem comanda o meu pedido?
Não que eu vá pagar ao consumir
Nem que eu vá cagar sem despedir
Mas hoje é praxe cantar o garçom
Mas hoje é chique babar no salmon
Boteco muquifo sujinho sem lei
Cenário pra tudo o que não aprontei
Fiado, no fundo, é erro de digitação
Troco uma letra, atesto a condição.
Sorvo e trago à espera do juízo
E regurgito meu último alívio
Até o chão já encarde o que sou
Até o pão adormece de enjoo
Mas na bandeja de bile e de fel
Enxergo um sonho de cana e pastel
Algum trono ainda usurparei
Descarga de bosta!, feliz reinarei.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Caguei
Tosquiei meu cordeiro,
Depenei minhas asas,
Desentoquei o meu lobo,
Perfurei meus lençóis,
Queimei fotos de família,
Escarrei nas estátuas,
Incriminei criancinhas,
Vilipendiei as santinhas ,
Arregacei orifícios,
Vazei combustíveis,
Alimentei cascavéis,
Dei tesouras a Dalilas,
Destronei monarquias,
Explodi manjedouras.
E agora estou pronto:
A minha bosta, o meu basta.
Depenei minhas asas,
Desentoquei o meu lobo,
Perfurei meus lençóis,
Queimei fotos de família,
Escarrei nas estátuas,
Incriminei criancinhas,
Vilipendiei as santinhas ,
Arregacei orifícios,
Vazei combustíveis,
Alimentei cascavéis,
Dei tesouras a Dalilas,
Destronei monarquias,
Explodi manjedouras.
E agora estou pronto:
A minha bosta, o meu basta.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Rapidinha
Ela disse tira
ele disse tira
ela disse calma
ele disse sempre
ela disse até parece
Ele disse já fui
ela disse ah
ele disse mais
ela disse até parece
Ele disse atrás
ela disse nunca
ele disse minha mulher deixa
ela disse:
too much information, baby
Ele disse foi mal
ela disse foi rápido
ele disse nunca acontece
ela disse sempre comigo
ele disse até parece
Ela disse meu marido horas
ele disse ah
ela disse e o dele ó
ele disse até parece
ela disse uma régua
ele disse:
too much information, baby
Ela disse vamos
meu marido vai chegar
– da reunião
Ele disse vamos
minha mulher vai voltar
– do dentista
Ela disse:
ele inventa compromisso
casei com um galinha
Ele disse:
ela inventa dor de dente
casei com uma vaca
Too much information, baby,
repetiram juntos,
já dentro do elevador.
E riram.
ele disse tira
ela disse calma
ele disse sempre
ela disse até parece
Ele disse já fui
ela disse ah
ele disse mais
ela disse até parece
Ele disse atrás
ela disse nunca
ele disse minha mulher deixa
ela disse:
too much information, baby
Ele disse foi mal
ela disse foi rápido
ele disse nunca acontece
ela disse sempre comigo
ele disse até parece
Ela disse meu marido horas
ele disse ah
ela disse e o dele ó
ele disse até parece
ela disse uma régua
ele disse:
too much information, baby
Ela disse vamos
meu marido vai chegar
– da reunião
Ele disse vamos
minha mulher vai voltar
– do dentista
Ela disse:
ele inventa compromisso
casei com um galinha
Ele disse:
ela inventa dor de dente
casei com uma vaca
Too much information, baby,
repetiram juntos,
já dentro do elevador.
E riram.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Sol e Lua
O sol congelou minha piscina
Na manhã em que acordou com baixa estima
Rasguei a sunga, pus a casa à venda:
Não posso depender do humor do rei
A lua resolveu cair da escada
Na noite em que no alpendre eu me deitei
Nem posso suspeitar que foi má fé:
Ao menos tive queijo no café
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Irritado
Aparentemente vivo,
Resvalo a rodo
No viscoso produto
De minhas irritações cotidianas
Tento estancar a gosma
E deslizar prudente
Pelo tapete áspero
De meu beco sem saída
Mas me encobre nova onda
Dessa borbulha furibunda
Que me repele os pares
E me impele às úlceras
Aparentemente vivo,
Afrouxo ainda mais os cintos
De minha turbulência acre
E aguardo a queda fatal.
Resvalo a rodo
No viscoso produto
De minhas irritações cotidianas
Tento estancar a gosma
E deslizar prudente
Pelo tapete áspero
De meu beco sem saída
Mas me encobre nova onda
Dessa borbulha furibunda
Que me repele os pares
E me impele às úlceras
Aparentemente vivo,
Afrouxo ainda mais os cintos
De minha turbulência acre
E aguardo a queda fatal.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Passo a Passo
Hoje eu só passei vontade:
De um bolo, de um colo.
De um canto, de um júbilo.
Hoje eu só passei da conta:
Gracejos, arremedos,
Protestos, descalabros.
Hoje eu só passei apertos:
Na boca do estômago, no intestino delgado,
No meio das pernas.
Hoje eu só passei a ferro:
Este meu coração que não esquenta,
Este meu desalinho que me inquieta.
Hoje eu só passei pomada:
Mas lenimentos são inúteis
Para ferida assim tão sangrenta.
Hoje eu só passei bem longe:
E nem vem com pique-esconde,
Tenho pressa e dor na glande.
Hoje eu só passei foi trote:
Desafinei no samba-rock
E inventei-me novo TOC.
Hoje eu só passei foi raiva:
Até entender que não sou eu que passo,
Que nem sei meu compasso.
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Duas Amantes
Toda vez que me deito com Adélia,
Poema puxa poema
E me estoura a bic no lençol.
Sei que é sinal de inveja boa
E fertiliza o bloco de papel A4
Que finjo esquecer ao lado da cama
Para momentos como este,
Em que palavras são sirenes
E a ambulância sou eu.
Sempre que me encaixo em Clarice,
Prosa aduba prosa
E me florescem etéreas fábulas,
Feito penas de ganso
Que escapem de prenhas fronhas.
Então prescrevo fiapos de sentença
E receito fios da mítica meada
Com letra apressada de doutor
E insônia aflitiva de amador.
Mas, claro, não me permito pistas nem rastros:
Sem consciência de florestas,
Ecologicamente incorreto,
Rasgo tudo na manhã seguinte,
Celulose inútil, letras de aborto.
E, pleno de gozo, me absolvo:
É meu ritual muito secreto
Para seguir amando as duas,
Adélia e Clarice, Clarice e Adélia.
Poema puxa poema
E me estoura a bic no lençol.
Sei que é sinal de inveja boa
E fertiliza o bloco de papel A4
Que finjo esquecer ao lado da cama
Para momentos como este,
Em que palavras são sirenes
E a ambulância sou eu.
Sempre que me encaixo em Clarice,
Prosa aduba prosa
E me florescem etéreas fábulas,
Feito penas de ganso
Que escapem de prenhas fronhas.
Então prescrevo fiapos de sentença
E receito fios da mítica meada
Com letra apressada de doutor
E insônia aflitiva de amador.
Mas, claro, não me permito pistas nem rastros:
Sem consciência de florestas,
Ecologicamente incorreto,
Rasgo tudo na manhã seguinte,
Celulose inútil, letras de aborto.
E, pleno de gozo, me absolvo:
É meu ritual muito secreto
Para seguir amando as duas,
Adélia e Clarice, Clarice e Adélia.
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Ligado
Na taça embaçada
De sofreguidão
Goles velozes
Volumosos goles
Não passam de gotas
De rubra ilusão
Incompetência da safra
Malogrado teor
Por que falham sempre,
Inútil zonzeira,
Fugaz estupor?
Pois sigo solerte
E suo insone
Não passo de volt
No aceso da noite
No espasmo da dor
De sofreguidão
Goles velozes
Volumosos goles
Não passam de gotas
De rubra ilusão
Incompetência da safra
Malogrado teor
Por que falham sempre,
Inútil zonzeira,
Fugaz estupor?
Pois sigo solerte
E suo insone
Não passo de volt
No aceso da noite
No espasmo da dor
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Dois pedidos
1.
Oh, gota apressada,
Que escapa da nuvem
Antes da profusão,
Pinga tua graça afoita
– solitária anunciação –
Em minha fronte inepta,
Aspereza da imaginação.
2.
Vem, lépida fagulha,
Que rejeita o graveto
No auge da fricção,
Espalha tua gana aflita
– prematura combustão –
Em meu deserto de bruma,
Profundeza da solidão.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
A próxima insônia
Agora é isso
Toda vez isso
Dia e noite isso
Cada sono que aborto
Sangra de manhã uma cachoeira
E eu não venço despejar no esgoto
As gosmas rubras do meu desconsolo
Nem mais evito manchar meus fuxicos
Com os piches noturnos de uma imensa dor
E ainda que empunhe o graveto e atice centelha
Esbarro a alma no velho abajur de cetim estampado
E choro este amor errado
Que teima em arder sem parelha
Minha gastura avança sem ponteiros
Até que olho as horas e avisto mil coelhos
Lépidos carrascos armados e desgovernados
Que me imprimem requintes de escalpelos
É tarde mas teclo sem brio um alô em carne viva
E só o que consigo de ti em nova inútil investida
É me enrolar zonzo torto fraco murcho
– mais sozinho ainda –
Nos trapos gélidos da próxima insônia
Toda vez isso
Dia e noite isso
Cada sono que aborto
Sangra de manhã uma cachoeira
E eu não venço despejar no esgoto
As gosmas rubras do meu desconsolo
Nem mais evito manchar meus fuxicos
Com os piches noturnos de uma imensa dor
E ainda que empunhe o graveto e atice centelha
Esbarro a alma no velho abajur de cetim estampado
E choro este amor errado
Que teima em arder sem parelha
Minha gastura avança sem ponteiros
Até que olho as horas e avisto mil coelhos
Lépidos carrascos armados e desgovernados
Que me imprimem requintes de escalpelos
É tarde mas teclo sem brio um alô em carne viva
E só o que consigo de ti em nova inútil investida
É me enrolar zonzo torto fraco murcho
– mais sozinho ainda –
Nos trapos gélidos da próxima insônia
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Uma Relação
Tenho alguém na minha vida
Que me diz coisas fodidas
Que eu nasci para escória
Que não sei o que é vitória
Que na boca há jorro pútrido
E no falo um lixo fétido
Que só arrasto uma carcaça
E envergonho qualquer raça.
Que decomponho e esfarelo
Às vezes bile, às vezes gelo
Que contamino o horror supremo
Primeiro engulho, depois veneno
E que me vai triturar miolos
E que me vai cozinhar miúdos
E quer rifar meus dez artelhos
E estilhaçar meus mil espelhos
Cobrir de lâminas orifícios
Vazar meus olhos sub-reptícios
Empelotar o sangue, escoar o sêmen
Até que vermes me acenem.
Mas não me importo, nada temo.
Tenho alguém na minha vida
Que me diz coisas fodidas
E só fraquejo e desabafo
Quando – pena! – tudo cessa,
Tudo fica na promessa.
Que me diz coisas fodidas
Que eu nasci para escória
Que não sei o que é vitória
Que na boca há jorro pútrido
E no falo um lixo fétido
Que só arrasto uma carcaça
E envergonho qualquer raça.
Que decomponho e esfarelo
Às vezes bile, às vezes gelo
Que contamino o horror supremo
Primeiro engulho, depois veneno
E que me vai triturar miolos
E que me vai cozinhar miúdos
E quer rifar meus dez artelhos
E estilhaçar meus mil espelhos
Cobrir de lâminas orifícios
Vazar meus olhos sub-reptícios
Empelotar o sangue, escoar o sêmen
Até que vermes me acenem.
Mas não me importo, nada temo.
Tenho alguém na minha vida
Que me diz coisas fodidas
E só fraquejo e desabafo
Quando – pena! – tudo cessa,
Tudo fica na promessa.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Rejeitado
Quando eu volto de você,
De olhos vermelhos,
Deixo água salgada como rastro
E você nem me segue
Com medo de mar...
Quando eu volto de você,
De olhos parados,
Cai um raio e não desmaio,
Boa-noite-cinderela como sequela,
E dói no almoço, e dói na janta,
Comprimido vira mistura.
E cisco o prato, mastigo as cápsulas,
Haja posologia, inútil profilaxia...
Pois eu volto de você
E quem disse que isso tem cura?
De olhos vermelhos,
Deixo água salgada como rastro
E você nem me segue
Com medo de mar...
Quando eu volto de você,
De olhos parados,
Cai um raio e não desmaio,
Boa-noite-cinderela como sequela,
E dói no almoço, e dói na janta,
Comprimido vira mistura.
E cisco o prato, mastigo as cápsulas,
Haja posologia, inútil profilaxia...
Pois eu volto de você
E quem disse que isso tem cura?
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Telefonia
E este telefone que não toca?
Quem inventou:
Este aparelho de tortura?
Este aparato de guerra?
Este aperto de gatilho?
Este apuro de saudade?
Do outro lado da linha,
Sem bateria nem vibracall,
Sei que alguém já dorme,
Sei que alguém já ronca,
Sei que alguém já era.
Deste lado da linha,
Na madrugada calada e fria,
Sem viva-voz
Nem rings
Nem beeps
Nem buzzers
Nem faces
Nem tunes
Nem messages,
Graham-Bell maltrata mais um amor.
Por falta de sinal.
Quem inventou:
Este aparelho de tortura?
Este aparato de guerra?
Este aperto de gatilho?
Este apuro de saudade?
Do outro lado da linha,
Sem bateria nem vibracall,
Sei que alguém já dorme,
Sei que alguém já ronca,
Sei que alguém já era.
Deste lado da linha,
Na madrugada calada e fria,
Sem viva-voz
Nem rings
Nem beeps
Nem buzzers
Nem faces
Nem tunes
Nem messages,
Graham-Bell maltrata mais um amor.
Por falta de sinal.
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Lírica Inútil
Não vou desperdiçar em verso
A palavra mais bonita da língua
Se você nem soneto nem ode
Persigo a retórica, perfeição idiomática,
A palavra mais rojão no céu da boca
Mas você nem canto nem trova
Balada de saliva, festa do sussurro,
A palavra mais formosa lambe e pinga
E você nem rima nem rica
A palavra mais bonita da língua
Se você nem soneto nem ode
Persigo a retórica, perfeição idiomática,
A palavra mais rojão no céu da boca
Mas você nem canto nem trova
Balada de saliva, festa do sussurro,
A palavra mais formosa lambe e pinga
E você nem rima nem rica
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
Sacada
Procuro rede de proteção
Contra meu ímpeto intergaláctico
Meu choro performático
Meu chilique programático
Procuro rede de proteção
À prova de um tolo dramático
Complexado enfático
Obcecado monotemático
Procuro rede de proteção
Para meu tédio monástico
Meu domingo de frio e Fantástico
Minha sacada de flores de plástico
Contra meu ímpeto intergaláctico
Meu choro performático
Meu chilique programático
Procuro rede de proteção
À prova de um tolo dramático
Complexado enfático
Obcecado monotemático
Procuro rede de proteção
Para meu tédio monástico
Meu domingo de frio e Fantástico
Minha sacada de flores de plástico
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Vivências
Pus o nariz pra fora da órbita
Tinha cada céu que eu despenquei
Fui parar no rabo de um cometa
Acordei sabendo que voei
Pus os pés pra fora da janela
Veio tanto ar que eu gangrenei
Fui parar na quadra da Portela
Tropecei pensando que sambei
Pus o pau pra fora da cueca
Era puro pó que eu espirrei
Fui parar no estojo da boneca
Me pintei, me pintei, me pintei
Pus a vida pra fora da gaveta
Tinha tanto nó que eu desatei
Fui parar no colo do capeta
E acabei tramando contra o rei
Tinha cada céu que eu despenquei
Fui parar no rabo de um cometa
Acordei sabendo que voei
Pus os pés pra fora da janela
Veio tanto ar que eu gangrenei
Fui parar na quadra da Portela
Tropecei pensando que sambei
Pus o pau pra fora da cueca
Era puro pó que eu espirrei
Fui parar no estojo da boneca
Me pintei, me pintei, me pintei
Pus a vida pra fora da gaveta
Tinha tanto nó que eu desatei
Fui parar no colo do capeta
E acabei tramando contra o rei
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Desta Vez
Diga você desta vez, diga
Tudo o que eu costumo lhe dizer
Diga você desta vez
E eu só fico aqui no vácuo,
Quieto, contrito, atento
Eu só fico aqui no ninho
Varado, vidrado, encantado
Enamorado da sua voz, sua cadência,
O volume e a potência.
Diga você desta vez, diga
Tudo o que eu penso de você e lhe derramo
Diga que você também pensa de mim e me derrama
Diga as palavras exatas que inventei pra lhe caberem
Diga como se fossem suas, frases prontas pra me vestirem
Diga você desta vez, diga
Diga que perde sangue, cai o cabelo,
Queima a pele, gela a espinha
Diga tudo o que padeço eu
Como se fosse seu
O corpo que definha
Diga você desta vez, diga
Peça, implore, declare, reitere
Bata na tecla da mesma sinfonia
Declame de volta a minha elegia
E, por um tempo meu, curto que seja,
– vento súbito que me pega,
chuva rápida que me rega –
eu ficarei respondendo sim, sim, sim, sim...
Todos os sins que você nunca me entrega.
Tudo o que eu costumo lhe dizer
Diga você desta vez
E eu só fico aqui no vácuo,
Quieto, contrito, atento
Eu só fico aqui no ninho
Varado, vidrado, encantado
Enamorado da sua voz, sua cadência,
O volume e a potência.
Diga você desta vez, diga
Tudo o que eu penso de você e lhe derramo
Diga que você também pensa de mim e me derrama
Diga as palavras exatas que inventei pra lhe caberem
Diga como se fossem suas, frases prontas pra me vestirem
Diga você desta vez, diga
Diga que perde sangue, cai o cabelo,
Queima a pele, gela a espinha
Diga tudo o que padeço eu
Como se fosse seu
O corpo que definha
Diga você desta vez, diga
Peça, implore, declare, reitere
Bata na tecla da mesma sinfonia
Declame de volta a minha elegia
E, por um tempo meu, curto que seja,
– vento súbito que me pega,
chuva rápida que me rega –
eu ficarei respondendo sim, sim, sim, sim...
Todos os sins que você nunca me entrega.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Malbec
Sim, eu tomo cuidado, muito cuidado,
Enquanto passo água pra escorrer o pó de solidão e bile,
Que acumula na pele jateada de cada habitante da cristaleira.
Mas se quebrar a taça no tilintar do inox da torneira,
Antes que desça pelo ralo o mais reluzente fragmento de festa,
Corro e escolho, dentro da porca pia, o caco mais bonito.
E com ele circuncizo-me pontas, mutilo-me em lascas,
Desbravo-me caminhos de coágulos vermelhos,
Entre encruzilhadas de pelos e colônias de acnes,
Jorrando-me de pirraça, pra manchar o tapete cor de creme
Que me anula há anos, com sua falta de viço,
No falso redemoinho de minha sala sem visitas.
Gélido, amparo-me torto na gordura pré-socrática
dos azulejos decorados de minha vã cozinha.
Recolho os outros cacos da taça quebrada
E com eles encho um prato fundo de louça:
Faço a última refeição, ‘estilhaços à moda do chef’.
Meto os dentes, ali mesmo, com os bagos rompidos
E a barriga encostada na velha pia de pedra lascada.
Suando de ciúme, intacta no óxido gasto
Da única bandeja de minha não-mobília,
A inútil garrafa de malbec, terrivelmente resfriada,
Rubra me assiste mastigar com cuidado,
Sim, com muito cuidado,
dez vezes cada bocada
– de cristal.
Enquanto passo água pra escorrer o pó de solidão e bile,
Que acumula na pele jateada de cada habitante da cristaleira.
Mas se quebrar a taça no tilintar do inox da torneira,
Antes que desça pelo ralo o mais reluzente fragmento de festa,
Corro e escolho, dentro da porca pia, o caco mais bonito.
E com ele circuncizo-me pontas, mutilo-me em lascas,
Desbravo-me caminhos de coágulos vermelhos,
Entre encruzilhadas de pelos e colônias de acnes,
Jorrando-me de pirraça, pra manchar o tapete cor de creme
Que me anula há anos, com sua falta de viço,
No falso redemoinho de minha sala sem visitas.
Gélido, amparo-me torto na gordura pré-socrática
dos azulejos decorados de minha vã cozinha.
Recolho os outros cacos da taça quebrada
E com eles encho um prato fundo de louça:
Faço a última refeição, ‘estilhaços à moda do chef’.
Meto os dentes, ali mesmo, com os bagos rompidos
E a barriga encostada na velha pia de pedra lascada.
Suando de ciúme, intacta no óxido gasto
Da única bandeja de minha não-mobília,
A inútil garrafa de malbec, terrivelmente resfriada,
Rubra me assiste mastigar com cuidado,
Sim, com muito cuidado,
dez vezes cada bocada
– de cristal.
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Necessidade Básica
Antes que eu me desande a escrever,
bem sei,
muito há de bom para ler.
E mais do que deitar leitura,
viver se impõe
na forma encompridada
de outro verbo imperativo:
vivenciar.
Mas para que a vida palpável?
Ou a leitura segura?
Se dentro de mim
urge o tempo quente da criação?
O que fazer
se na altura das têmporas
me formigam frases completas,
instando papel pautado
clamando tinta de impressão
rogando alfabetos?
Como segurar, no ventre inchado das ideias,
todas essas orações gestadas em ímpeto?
Como?
Concebidas em frenesi,
sentenças já bem formadas
implorando por jorros de aborto.
Retê-las é reter-me
Impedi-las de vincarem sulcos
no celulose virgem das páginas em branco
é como encruar-me
É como me autoimpor
a secura de um cacto
a aridez a me arder na vista
o vômito ácido hospedado na boca
o sêmen farto a borbulhar inútil.
Não.
Não posso enclausurar minhas palavras
na prisão perpétua da autocrítica.
Não posso ser meu algoz
a me reprimir inclemente.
Pesam-me os anos desperdiçados sem letras
– e isso já não basta?
Sou um velho afoito
por queimar atrasos.
Sou um jovem nascendo
para as possibilidades da prosa.
Que venham depois os detratores
e que me roubem o sono
– mas eu mesmo já não o tinha excluído
de minhas noites inquietas?
Que venham os críticos,
os juízes,
os advogados,
os donos do mundo
com seus decretos
– eu saberei, afinal, distribuir
pesos e medidas.
Quero antes que me afrontem
meus próprios verbos
a temer primeiro
os adjetivos adversários.
Quero os substantivos abstratos
enfeitando minhas ficções de concreto.
E se o medo agora me dói
já é então a dor de crescimento.
Se a coragem me empurra
já é então a certeza de liberdade.
Eis que o discurso flui,
vertendo fagulhas,
raios, lampejos.
Estou pronto.
O que li já me serve e me ampara
O que eu já vivi me instiga e me desafia
Achem o que acharem,
julguem o que for.
A pretensão me domina,
a decisão impera.
Opção já não há.
Eu quero, agora, é escrever.
bem sei,
muito há de bom para ler.
E mais do que deitar leitura,
viver se impõe
na forma encompridada
de outro verbo imperativo:
vivenciar.
Mas para que a vida palpável?
Ou a leitura segura?
Se dentro de mim
urge o tempo quente da criação?
O que fazer
se na altura das têmporas
me formigam frases completas,
instando papel pautado
clamando tinta de impressão
rogando alfabetos?
Como segurar, no ventre inchado das ideias,
todas essas orações gestadas em ímpeto?
Como?
Concebidas em frenesi,
sentenças já bem formadas
implorando por jorros de aborto.
Retê-las é reter-me
Impedi-las de vincarem sulcos
no celulose virgem das páginas em branco
é como encruar-me
É como me autoimpor
a secura de um cacto
a aridez a me arder na vista
o vômito ácido hospedado na boca
o sêmen farto a borbulhar inútil.
Não.
Não posso enclausurar minhas palavras
na prisão perpétua da autocrítica.
Não posso ser meu algoz
a me reprimir inclemente.
Pesam-me os anos desperdiçados sem letras
– e isso já não basta?
Sou um velho afoito
por queimar atrasos.
Sou um jovem nascendo
para as possibilidades da prosa.
Que venham depois os detratores
e que me roubem o sono
– mas eu mesmo já não o tinha excluído
de minhas noites inquietas?
Que venham os críticos,
os juízes,
os advogados,
os donos do mundo
com seus decretos
– eu saberei, afinal, distribuir
pesos e medidas.
Quero antes que me afrontem
meus próprios verbos
a temer primeiro
os adjetivos adversários.
Quero os substantivos abstratos
enfeitando minhas ficções de concreto.
E se o medo agora me dói
já é então a dor de crescimento.
Se a coragem me empurra
já é então a certeza de liberdade.
Eis que o discurso flui,
vertendo fagulhas,
raios, lampejos.
Estou pronto.
O que li já me serve e me ampara
O que eu já vivi me instiga e me desafia
Achem o que acharem,
julguem o que for.
A pretensão me domina,
a decisão impera.
Opção já não há.
Eu quero, agora, é escrever.
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